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Blog de Nonato Reis


Cidade, a maior de todas as invenções

A cidade é o maior engenho humano. Sua origem, de tão remota, perde-se no tempo. Estima-se que os primeiros aglomerados urbanos tenham surgido há mais de 7.000 anos, na Mesopotâmia, naquele vale formado pela junção dos rios Tigres e Eufrates, uma região de terras férteis, próprias para o cultivo de grãos e de atividades pastoris. Em razão da complexidade do regime de cheias desses rios, havia a necessidade de se construir um avançado sistema de controle hidráulico e de irrigação, o que exigiu um esforço assombroso de engenharia. E o somatório de braços e mentes.

Há até quem acredite que as cidades não sejam criações humanas. No livro “O 12° Planeta”, Zecharia Sitchin, especialista em antiguidades e consultor da NASA, a agência espacial americana, sustenta que, em seus primórdios, a Terra foi colonizada por seres divinos, chamados nefilins. Eles não apenas teriam lançado as bases de toda a ciência como edificado as principais cidades sumérias, dentre elas Ur, Lagash, Nipur, Sippar e Eridu.

De origem alienígena ou não, o certo é que a cidade surgiu quando o homem se cansou da vida isolada no campo e decidiu viver em grupo. A idéia então era juntar esforços, criar uma estrutura física e operacional que pudesse garantir mais segurança, facilidades de comércio, conhecimento, lazer e prazer. O princípio basilar assentou-se na troca, tanto de mercadorias, quanto de experiências e sentimentos.

O tempo passou, as cidades cresceram. Vieram as metrópoles, com populações de l milhão ou mais de habitantes; depois as megalópodes, com até 20 milhões de pessoas. Tornaram-se estruturas político-administrativas gigantescas. Natural que fossem objeto de estudo e intervenção constante. E também que houvesse, da parte dos cidadãos, um cuidado especial na hora de escolher os seus gestores.

Infelizmente, não é o que acontece. Em São Paulo, maior cidade do país, a campanha eleitoral tem o foco voltado para 2014, quando se elegem o governador do Estado e, principalmente, o Presidente da República. Durante a campanha eleitoral, quando a cidade deveria ser o alvo primordial do debate político, o que estará em discussão é a sucessão de Dilma Roussef e não o substituto de Gilberto Kassab.

Em São Luís, nesta fase de pré-campanha, ao invés de se discutirem os graves problemas de infraestrutura, os gargalos da saúde e da educação, perde-se um tempo precioso com a engenharia das coligações e a escolha dos atores que estarão envolvidos na disputa eleitoral. Ou seja: troca-se o conteúdo pela embalagem. Não que seja irrelevante a definição da arquitetura política. Porém, mas importante que isso é saber como se pretende administrar uma cidade estagnada no tempo e às voltas com a ameaça de um colapso em sua malha viária.

Em artigo publicado na revista Veja, no início de março deste ano, Roberto Pompeu de Toledo classifica a propaganda eleitoral como um espaço de mistificação. “Bonitas cenas, embaladas por comovente fundo musical — e por fim o candidato, produzido até a última camada de maquiagem”. E sugere, como contribuição à reforma política, que os programas de rádio e televisão sejam transformados em espaços de informação, limitando a propaganda às inserções diárias.

Seria um passo importante para se despir os candidatos e formar eleitores conscientes. Ao invés de programas conduzidos por comitês de campanha, que fossem dirigidos por entidades da sociedade, e que nas entrevistas e debates participassem jornalistas sem vínculos partidários e especialistas das mais diversas áreas.

Nas condições atuais, mudanças assim soam quase utópicas. Nem mesmo a mídia, que tem um papel social estratégico, demonstra interesse em lançar um olhar reflexivo sobre a cidade. Jamais se viu, nos veículos locais, durante o período que antecede a campanha, qualquer iniciativa mais abrangente. Nenhum jornal, rádio ou TV criou espaços para se discutir, por exemplo, a mobilidade urbana, que é um problema crucial na Ilha de São Luís, onde reside uma população de quase 1,5 milhão de habitantes.

Até hoje, em matéria de trânsito, parece que ainda estamos tentando inventar a roda. Quase todas as intervenções na malha viária contemplam o veículo de passeio, que transporta tão pouca gente, em detrimento do transporte de massa. O automóvel particular conduz em média duas ou três pessoas, ao passo que o ônibus pode carregar até 70 passageiros. Mesmo assim, não existem faixas exclusivas para ônibus em qualquer avenida, muito menos corredores próprios. Algumas cidades investem na implantação de Veículos Leves sobre Trilhos, mas São Luís, como a caminhar na contramão, cria é mais linhas de ônibus dentro do mesmo espaço físico.

Se o trânsito é problemático, a limpeza pública é um caos. O corredor de entrada de São Luís, entre a Estiva e o São Cristóvão, dá vexame. Mato, lixo, buraco e desleixo se misturam ao longo dos 25 quilômetros que separam o aeroporto Cunha Machado da ponte sobre o Estreito dos Mosquitos.  Os passeios centrais das avenidas se transformaram em depósitos de lixo, o que projeta uma imagem desoladora e a sensação de ausência da administração pública.

Parece haver uma cumplicidade perversa entre poder público e moradores. O primeiro, por não fazer as intervenções necessárias; o segundo por dilapidar os bens públicos e não cobrar os devidos reparos. Quem joga lixo na rua vê a cidade como um monturo, algo repugnante e degradante. Quem se omite na ação de fazer, de fiscalizar e punir chancela o erro e se alia ao transgressor.

Não que a responsabilidade sobre isso seja exclusiva da gestão atual. É algo atemporal, que se estende sobre gerações. Porém, é inadiável tomar consciência e tentar eliminar esses vícios, que tanto maltratam a cidade. Reconstruir São Luís e torná-la um lugar aprazível para se viver não é tarefa de um governo apenas ou de governos, mas de toda a sociedade, fruto de um processo constante de mobilização, discussão e intervenção. É um projeto sem prazo de validade, mas que precisa ser iniciado imediatamente. Que a opinião pública se debruce sobre o tipo de cidade que gostaria de ter. E os eleitores reflitam sobre quem tem preparo para conduzir essa missão.




Escrito por Nonato Reis às 06h47
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Enide Jorge Dino, um exemplo

 

Em “A Via Láctea”, Renato Russo, morto em 1996, ensina que “quando tudo está perdido/sempre existe um caminho (...) sempre existe uma luz”. Os versos dessa música parecem ter sido feitos para Enide Moreira Lima Jorge Dino, viúva do médico Antônio Jorge Dino, e presidente da Fundação Antônio Dino, entidade responsável pela gestão do Hospital Aldenora Bello. Aos 84 anos, ela esbanja lucidez, charme, vitalidade e um sólido propósito de superar desafios.

Há anos Enide caminha no limite do possível, tentando manter de pé uma obra gigantesca. Seus olhos passeiam alegres pelo passado. Viajam até 1966, quando assume a Rede Feminina de Combate ao Câncer. O marido Antônio Dino recebe a Liga Maranhense de Combate ao Câncer. Começava ali uma odisséia de desafios, lutas inglórias e sacrifícios. Nessa época, o hospital Aldenora Bello era apenas uma fachada com consultório e sala de Raio-X.

Enide e Dino deram então início ao projeto de aquisição de uma bomba de cobalto e à construção de um pavilhão para a sua instalação. Dinheiro, não havia. Os custos do empreendimento eram altíssimos. Foram anos e anos, correndo atrás de doações, apelando para a caridade humana. Enide e suas voluntárias saíam pelas ruas com um enorme lençol desfraldado, seguro nas extremidades, recolhendo donativos.

Tudo caía dentro do lençol: cheques, confecções, mercadorias. Os alimentos eram entregues aos operários que construíam o pavilhão, onde seria instalada a bomba de cobalto, já que não havia recursos para pagar os seus salários. Muitas vezes, Dino recorria ao amigo Nagib Haickel, então dono de armazém, que o socorria vendendo-lhe mantimentos fiado.

Não raro, altas horas, ela flagrava o marido em pé, diante da janela, os olhos perdidos, a face amargurada. Cedo saía às ruas a pedir ajuda. “Fazíamos pedágios nos sinais de trânsito, vendíamos canecos de chope, livros de receitas, tudo o que podia ser transformado em dinheiro”. Na charanga que animava suas caminhadas, destacava-se uma menina morena, a voz firme, ótima trompetista. O mundo a conheceria anos depois na pele de Alcione, a Marrom.

Conseguiram o dinheiro para a instalação da bomba, mas faltavam os recursos para a aquisição do equipamento, que era caríssimo. Enide decidiu procurar o governador da época, Pedro Neiva de Santana, que prometeu ajudá-la. Só que se esqueceu de dizer quanto custava o equipamento. “Ele não perguntou e eu não me lembrei de informar o preço”.

Resultado: o governo creditou dez mil cruzeiros, dinheiro insuficiente para cobrir o valor da entrada. Começava então nova maratona de bingos, sorteios e festas. A bomba chegou da Holanda em 1975, mas teve que ficar um ano, guardada no Porto do Itaqui, esperando a conclusão do pavilhão. Foi instalada em março de 1976, poucos meses antes do falecimento de Antônio Dino, ocorrido a 18 de julho daquele ano.

A morte do marido foi um duro golpe. Ele não era apenas o seu consorte, mas um dos pilares, talvez a viga-mestra da batalha contra o câncer no Maranhão. Viu-se órfã de uma parte preciosa de si. Pela primeira vez a luz piscou dentro do túnel. Não se entregou. “Tinha que continuar a obra idealizada por ele. Era uma forma de cultuar a sua memória”.

Promoveu a fusão da Liga com a Rede e assim surgiu a Fundação Antônio Jorge Dino. Era uma batalha de Davi contra Golias. Naquela época não existia o SUS. Os pacientes traziam a credencial do INPS ou eram simplesmente indigentes, e destes nada recebia. O INPS fazia um reembolso com três meses de atraso, isso numa época de inflação estratosférica, e sem a devida correção. O caixa da Fundação minguou e entrou no vermelho.

As prestações da bomba de cobalto atrasaram. A Phillips, fornecedora do equipamento, ameaçou retomá-lo. Enide tentava de todas as formas arrecadar recursos, mas a situação só piorava. Pela segunda vez viu a luz piscar na escuridão. Foi para Brasília tentar sensibilizar os políticos. Edson Vidigal, na época deputado federal, fez um discurso dramático em defesa do hospital. Deu certo. O governo brasileiro saldou as prestações e a bomba se tornou patrimônio da Fundação.

Em 1983 a crise bateu forte de novo. Os salários de médicos e funcionários atrasaram três meses e eles decidiram entrar em greve. Aflita, Enide caminha, na madrugada, pelos quartos da casa. Diante de uma foto do marido, que parecia acompanhá-la com o olhar, não se contém e desabafa. “A culpa é sua. Como é que você morre, fica aí no bem bom e me deixa aqui com este problema?”.

Reuniu médicos e funcionários e jogou a toalha. Disse que não tinha como pagar os salários em atraso e que a partir daquele momento os destinos do hospital ficavam nas mãos deles. Voltou para casa amargurada. “Tanto trabalho para nada”, pensou consigo. A luz, que antes apenas emitia sinais velados, apagou-se de vez. Mas surge um caminho!

Ao chegar a casa, encontrou um recado de Celso Coutinho, então presidente da Assembleia. Pedia que a telefonasse com urgência! “Só podia ser mais encrencas”. Coutinho quis saber como ia o hospital. “De mal a pior”. “Venha ao meu gabinete”. Que surpresa! Era um cheque! Os deputados, à exceção de um, haviam recebido dois meses a título de serviço extra e tinham decidido doar o equivalente a um mês para a Fundação Antônio Jorge Dino. Dava para cobrir a folha de pagamento. Fez-se a luz novamente!

No final dos anos 80, com José Sarney na Presidência da República, foi novamente a Brasília e, recebida por ele em audiência, pediu ajuda. O governo doou uma nova bomba de cobalto e liberou recursos que garantiram a ampliação do espaço físico e a aquisição de equipamentos. Também obteve a concessão do título federal de utilidade pública.

Sob o fio da navalha, Enide Jorge Dino enfrentou e superou todos os desafios. O Hospital Aldenora Bello tornou-se uma referência no tratamento do câncer. Hoje se assenta sobre uma área de 12 mil metros quadrados, dividida em três pavimentos. Está aparelhado com o que há de mais avançado. Enide quer mais. “Planejo construir mais 100 leitos”. Os custos: R$ 55 milhões! Ela dá de ombros.  “Não adianta ser tranqüilo quando tudo está dando certo, e sim, quando as coisas estão dando errado”. Vivo estivesse, Antônio Dino sorriria largo.



Escrito por Nonato Reis às 19h51
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                                               Serrar Velho (ou Serrar a Velha)!

 

Era sacro! Ao escurecer do dia 19 de março, nos campos do Muricituba, a molecada ganhava o mato, reunia-se em volta de uma grande árvore, conferia os instrumentos de som e colocava em pauta a votação dos indicados. Os eleitos, geralmente pessoas idosas e rabugentas, naquela noite não teriam sono tranqüilo. Quando caía a madrugada, alguém que se autodenominava Anjo Gabriel, chegava à janela da vítima, anunciava a sua morte, e dava início à leitura do testamento, sem esquecer pormenores como dívidas e objetos de estimação ou de uso pessoal.

Em seguida a “orquestra”, formada de serrote, lata velha, rabeca, carrapeta, galo, gato, porco e jumento iniciava o dobrado. Não havia alma que não fosse resgatada das profundezas do sono para aquele ruído ensurdecedor. Na maioria das vezes o infeliz, do sono desperto, e alvo da ‘homenagem’, reagia mal, lançava mão de uma espingarda, atirava para o alto, ou tentava acertar as contas no braço com os malfeitores.

No Muricituba a brincadeira de Serra Velho (em Portugal, diz-se “Serrar a Velha”) acabava sempre em confusão. Os ‘serrados” não se conformavam em se verem alvo de chacota e geralmente iam até a casa dos brincantes tirar satisfações com os pais deles. Certa vez, a eleição recaiu sobre João de Capoeiro, um sujeito de olhar enfezado, que falava como se estivesse chorando.

Gabriel e sua trupe bateram à casa do infeliz à meia-noite em ponto. “João, acorda! Chegou a tua hora”. Silêncio. “Vim anunciar a tua morte. E fazer o teu testamento”. Sossego absoluto. “Tua tarrafa fica para Zezinho, o teu filho caçula. A enxada, para Apolônio, o mais velho. A calça de brim encardida deixa com Raimunda, a filha do meio, pra ela fazer uma sunga. A espingarda velha será útil a Dadá, tua mulher, para caçar passarinho e matar a fome”.

Terminado o testamento, o anjo se dirigiu ao grupo. “Não há mais nada a partilhar?”. Diante da resposta negativa, bradou. “Então, amigo João, agüenta o corpo que lá vai...”. Não deu nem tempo de o serrote tocar a lata. A voz de João de Capoeiro surgiu aguda, a dois metros do grupo. “Lá vai é facão em vocês, seus demônios!”.

Foi gente correndo pra todo lado e o facão de João estalando nas costas da molecada. Na ânsia para evitar a arma escorreguei numa grota de dois metros de altura. Machuquei o braço direito, tive escoriações pelo corpo. Só consegui sair do buraco no dia seguinte, em meio a risos, lamentos e censuras.

Pior foi quando a eleição recaiu sobre Nenê de Santa.  Ela vivia sozinha com um filho, deficiente físico. Era reservada e calada. Quase não sorria. A única vez em que alguém tentou ‘serrá-la’ quase foi alvejado com um tiro de garrucha.  O grupo decidiu que ela seria a bola da vez. Mas se arrependeu da graça. Em plena leitura do testamento, o caldo engrossou, ou melhor, entornou.

Na hora em que o anjo quis saber com quem ficaria o penico de esmalte dourado, ela se antecipou, abriu a janela e anunciou. “Fica contigo, seu moleque safado!”. E derramou na cabeça de Gabriel o apetrecho cheio de urina de vários dias, misturada com dentes de alho, cebola e pimenta do reino.

 O mau cheiro se prolongou na cabeça do anjo por mais de uma semana. A namorada cortou relações com ele. Os amigos o mantinham a distância. Os pais o separaram da casa grande. Armaram uma rede no fundo do quintal, na casinha do cachorro, e o deixaram lá com o animal, entregue a moscas e pulgas, até que o fedor desaparecesse. Desde então, Serrar Velho nunca mais. Foi santo remédio.  



Escrito por Nonato Reis às 11h13
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O Evangelho segundo um mortal

 

Desde menino carregava consigo um drama. Consultava o espelho e via o débito crescer de tamanho como uma espiral, feito bola de neve. Não podia ser normal. Nascera de pais privilegiados pela estética. Na mocidade a mãe ganhara todos os concursos de beleza de que participara. O pai era considerado um deus grego, tal a delicadeza dos traços físicos. Por que ele então degenerara? Tinha que haver uma explicação. Chegou a considerar a hipótese de infidelidade conjugal. Seria fruto de um adultério?

Um dia, já com o cérebro calejado de tanto pensar, pegou a mãe pelo braço e dela exigiu explicação. “Que diabo há comigo, mãe? Por acaso nasci de pai diferente?”. De súbito golpeada, a mãe engoliu em seco. “Meu filho, o que é isso? Que ideias são essas?” Despejou sobre ela todo o trauma que lhe corroía a alma. “Sou feio de doer. Pareço um monstrengo. Não posso ter sido gerado de ti. Ou tu traíste meu pai ou vocês traíram a mim... E neste caso não sou filho de nenhum dos dois”.

Ainda tomada de espanto, a mãe o colocou no colo, alisou seus cabelos em cachos; com a ponta do dedo indicador direito, acentuou a linha do rosto, como a exorcizar os seus pesadelos. “Meu filho, onde você tirou esse absurdo! Quem lhe disse que é feio, e como pode fazer mau-juízo de mim e de nós, os teus pais?” Não se entregou. “Feio sei que sou, e quem me diz isso é o espelho. O resto é conseqüência. Se vocês são bonitos e eu, medonho, das duas uma: ou não sou filho de vocês ou a senhora transou com outro”.

Refeita do choque, a mãe reagiu firme. “Olha aqui, menino, você me respeite! Sempre fui fiel ao teu pai. Casei com ele virgem, porque o amava e também porque, antes dele, não encontrei ninguém que merecesse o meu carinho. Jamais o traí. O amor que sentimos um pelo outro é muito maior que a tentação da carne”. Por um instante, fincaram em silêncio. Mais calma, retomou a palavra, imersa em carinho. “Filho querido, não te maldiz. É um ser humano lindo por fora e por dentro. Para mim, é a pessoa mais linda desse mundo, te juro”.

Suspirou e se deu por vencido. Não havia como encontrar respostas para a sua dor existencial no colo da mãe. “Mãe é tudo igual. Nunca vai dizer nada que contrariem os filhos. Sob os olhos delas todos somos perfeitos”, comentou consigo mesmo, já no silêncio do quarto. Deitado na cama, os olhos espetados no telhado e o pensamento a vagar, tentava encontrar um caminho que lhe pudesse tirar daquele sufoco, ou ao menos explicar o porquê de tamanha desventura.

Lembrou-se dos tempos de ginásio, quando os colegas de classe o apelidaram de “orelha de abano” e “cabeça doida”, em face dos exageros do seu traçado físico. As meninas daquele tempo o olhavam com desprezo. Nenhuma delas se dignava a prestar atenção em si. Fora de casa, a única mulher a lhe dar atenção era a professora de Português, para quem era “um amor de pessoa”. “Mas isso corria por conta do meu bom rendimento com as palavras”, justificava com seus botões.

De tanto pensar numa forma de aliviar o sofrimento, acabou encontrando a saída. E ela lhe pareceu tão óbvia que se pôs a perguntar por que não a havia descoberto logo. “Quem me deve explicação é Aquele que decidiu a minha vida e o meu destino, bem antes dos meus pais e de mim. Vai ter que se ver comigo. Não há como escapar do meu cerco”. Mas onde encontrá-lo? Lógico, na igreja! Não é lá a casa dele?

Foi ao cair da noite, naquele pequeno espaço de tempo que separa a luminosidade da sombra, quando o brilho das coisas começa a se apagar e no lugar das imagens vivas vão surgindo formas acinzentadas, que se deu o encontro tão esperado. Ali mesmo, naquele espaço considerado sagrado, diante do altar, sob a luz esmaecida de velas e candelabros.

- Filho, o que lhe traz aqui? Abre o seu coração. Sou todo ouvido.

Longe de acalmá-lo e de lhe transmitirem segurança, as palavras iniciais do Pai serviram apenas para deixá-lo ainda mais irritadiço e agressivo.

- Muito engraçado. Tu não és o todo-poderoso, onipresente e onisciente? Não sabe o que se passa no íntimo de cada um dos teus filhos? Então por que esse rodeio todo, e não me diz logo o que desejo saber?

O Pai deu um suspiro e redargüiu, paciente:

- É verdade, filho. Eu sei tudo que se passa em cada alma que criei. Mas, por uma questão de delicadeza, prefiro ouvir suas queixas de viva-voz.

-Pois então ta! Quero que me explique por que fez essa maldade comigo. Se tu és todo-bondade, como teve coragem de me botar no mundo, cria de pais lindos, feio de amargar?

O Pai deu um segundo suspiro e se pôs a explicar:

Filho, eu permiti que viesse feio para compensar outros atributos de que te fiz possuidor. Não é bonito em físico, mas tem inteligência, que é coisa pouco comum nos homens; generosidade no coração, algo ainda mais raro nos dias atuais; e conhecimento que, se bem utilizado, poderá levá-lo a se tornar um sábio, algo que na Terra aparece um a cada dois mil anos. O último que por aqui passou foi o Messias.

- É, mas Ele Tu permitiu que viesse rico de virtudes e de beleza física. Basta olhar as imagens Dele. Apolo perdia era feio!

Pela terceira vez o Pai suspirou e depois ponderou:

- Isso é uma invenção do Ocidente! Quem O viu em carne e osso para dizer que era bonito?

- Isso pouco importa? Interessa é que a imagem dele de beleza se eternizou! É só falar dele e logo vem à lembrança aqueles olhos verde-estanho, o nariz afinadíssimo, o olhar grave, o físico delgado, sem um pingo de gordura, e os cabelos compridos de galã de novela. E eu, o que dizer de minhas fotos? Basta olhar para elas e todos logo verão que sou ou fui horrível. É isso que vai para a eternidade!

No quarto suspiro, o Pai perdeu a paciência e decidiu encerrar a entrevista:

Meu filho, já vi que contigo não tem conversa. Vamos fazer o seguinte: no Juízo Final a gente se encontra de novo e lá todas essas questões serão passadas a limpo, tintim por tintim.

Num misto de raiva e desolação, se levantou e deu-Lhe as costas. Já ia bater as porta, e voltou-se, os olhos marejados de lágrimas:

- Por mim, pouco importa o Juízo Final. Quando ele chegar, não estarei mais aqui. E morto, tanto faz se bonito ou feio.



Escrito por Nonato Reis às 13h22
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Padre Eider, lembranças

 

Eider da Silva Furtado era dessas pessoas que parecem viver além do seu tempo, tal o grau de pureza do pensamento e a capacidade de enxergar, que lhes permitem ver coisas distantes do olhar comum. Em Viana, onde viveu a maior parte da vida, inclusive seus últimos dias, foi uma referência obrigatória. Carregava na mente uma espécie de arquivo vivo da cidade. Sabia sua história, conhecia seus ícones e personagens. Por ela lutou. Acumulou derrotas e vitórias. Jamais se deixou vergar. Do começo ao fim.

Conheci-o na idade da pedra, ou, melhor dizendo, ainda nos domínios da lamparina. Eram tempos difíceis. Luz elétrica, só na cidade, e ainda assim produzida em motor. Na zona rural, onde eu morava, só havia o querosene. Televisão não existia. Nem telefone. As comunicações a distância se resumiam ao velho telégrafo e ao rádio transistorizado. A religião pairava sobre os vilarejos como um manto de fé, a proteger seus habitantes dos males e ameaças.

Naquela época de isolamento o padre assumia uma dimensão quase divina. O garoto completava sete, oito anos e já estava matriculado no curso de catecismo. A primeira comunhão era sacramento obrigatório. Na condição de pároco e pastor do rebanho, Eider assumia, pessoalmente, os trabalhos de iniciação ao cristianismo. Um dia, no meio da aula, soltou para a turma uma pergunta capciosa. “Alguém aqui sabe qual é a idade de Jesus Cristo?” E emendou, como a estimular a reflexão: “aquele que acertar ganha um prêmio”.

Fui reencontrá-lo em 1989. Havia lançado o jornal “Cidade de Viana”. Mandei convidá-lo para a solenidade de lançamento do veículo, ao que ele compareceu com entusiasmo. Ao final da cerimônia fui ao seu encontro. Estava sentado em uma cadeira na última fila da platéia. Quis saber quem era eu. “Sou filho de Renato Mendonça, lá do Ibacazinho”. E ele: “Ora, ora, então é lá de perto do Muricituba”.

Como a reavivar sua memória, invoquei o tempo. “Eu sou aquele garoto que acertou a questão sobre a idade do Cristo. O senhor nunca me entregou o prêmio prometido. Continua em débito comigo”. Ele não mais se lembrava do episódio. Aproveitei a deixa e provoquei-o. “É natural que esteja esquecido, padre. Quem deve não lembra”. Ele sorriu e quis saber mais sobre o jornal.

Era um apaixonado pelas coisas da Viana. Tudo o que representasse melhorias para a cidade e sua gente ganhava, de imediato, o seu apoio. Se, ao contrario, era uma ameaça à história e aos seus valores culturais, recebia o seu mais veemente repúdio. Quando Walber Duailibe demoliu o sobrado do Canto Grande, arregimentou forças, fundou o Comitê de Defesa do município, foi para as ruas, protestou. A vitória veio com o tombamento do perímetro histórico.

Do mesmo modo, quando venderam os sinos da Igreja Matriz, numa ação considerada criminosa, sua voz ecoou forte nos microfones de rádio, nas páginas de jornais e revistas e nos espaços de TV. Incomodou o poder. Sua ação destemida se propagou pelo país inteiro. Os sinos acabaram localizados no Rio de Janeiro. Foram resgatados e assentados de volta no alto das torres da igreja. Viveu como poucos os ideais da Teoria da Libertação, sempre ao lado dos pobres e dos oprimidos, combatendo a violência e as injustiças sociais.

Bateu de frente com a ala conservadora da igreja católica local. Denunciou o comércio criminoso de imagens sacras. Foi proibido de exercer suas funções sacerdotais. Jamais se curvou. Recorreu à justiça e, com base nas leis trabalhistas, cobrou a devida indenização dos anos dedicados à igreja, numa ação inédita no âmbito do Vaticano. Para a sociedade, nunca deixou de ser o padre querido, digno de respeito e admiração.

Sua casa, na Praça da Matriz, era o meu refúgio, sempre que viajava de São Luís para Viana. Lá passava horas em animadas conversas sobre política, religião, história ou assuntos amenos. Mesmo aos 90 anos, era de uma lucidez comovente. A memória parecia fotográfica. Capaz de recordar nomes, episódios e datas, com precisão cirúrgica. Bom ouvinte, valorizava cada frase do interlocutor. Se discordava o fazia por meio de um recurso lingüístico que amenizava o impacto da negativa. E quando sorria, o rosto parecia imerso em luz.

Quando se descobriu doente e em estágio irreversível, enfrentou o desafio com dignidade e grandeza de espírito. Precisava se tratar em São Luís, passar por sessões semanais de hemodiálise. Resistiu ao sacrifício. Alegou que já havia vivido muito. Era grato a Deus pelo tempo de vida recebido. Preferiu permanecer na sua Viana até o apagar da chama. Feliz, partiu. Havia cumprido sua missão. Eu perdi um amigo. Os céus receberam de volta um filho querido.

P.S

Acuso com satisfação o exemplar autografado do livro “Entre Viana e Viena”, do ilustre escritor e conterrâneo Lourival Serejo, ele que é desembargador do Tribunal de Justiça do Maranhão. É uma coleção de 100 crônicas do quotidiano, escritas num estilo simples, claro e sedutor. Nelas emerge um Lourival lúcido, às vezes romântico; outras, saudosista e até crítico, mas



Escrito por Nonato Reis às 08h12
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Viana: glória no passado, sombra no presente

 

Vista a partir de um ângulo histórico, Viana é um dos mais belos registros no mapa do Maranhão.  Localizada na porta de entrada da Baixada Maranhense, a 200 km de São Luís, a cidade exibe um passado reluzente. Neste quesito está entre os quatro mais importantes sítios do Estado. Reúne acervo cultural e arquitetônico de inestimável valor. Em um de seus casarões, há muito tempo desaparecido da paisagem urbana, o marechal Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, patrono do Exército Brasileiro, teria sido alvo de homenagem organizada pela elite local para comemorar os seus feitos de guerra.

O que condena Viana é o presente (ou os anos recentes), que parece pairar sobre seu destino como uma nuvem sombria. Por cerca de quatro décadas o município tem sido castigado por uma safra de prefeitos que parece administrar com um olhar pequeno. Para Walber Duailibe governar era dar o que o povo pedia. E como o povo pedia! Carente de tudo, fazia procissão diante da casa do prefeito para tentar aplacar as suas necessidades elementares.

 Foi Walber, aliás, quem inaugurou esse estilo de puro assistencialismo ou mendicância, como queiram chamar. É uma fórmula caolha, que tangencia o individual e condena o coletivo. Bom prefeito para o povo passou a ser aquele que, mesmo eventualmente, diz “sim” aos seus pedidos, ainda que vire as costas para as demandas sociais e as necessidades urbanas. Walber, às vezes, se ausentava da cidade por longos períodos. Despachava de uma casa em São Luís. Submissa, a Câmara fazia-lhe vistas grossas. Jamais o incomodou.

Na década de 80 a cidade foi alvo de vexame. Primeiro, com a demolição do sobrado do Canto Grande, palco da homenagem a Caxias, para construção de um hotel. Houve reação de entidades de classe. Mobilizou-se a Secretaria de Estado da Cultura. A cidade teve o seu perímetro histórico tombado. O prefeito botou a baixo o casarão, mas foi impedido de construir no local a tal obra. Até hoje o terreno está lá, como testemunha ocular de um crime.

Ainda nos anos 80 Viana seria destaque na mídia nacional, por conta da sua inscrição no vendaval de denúncias de corrupção que varreu o Governo José Sarney (1985-1990). A suspeita é que o município tenha recebido verba irregular para aplicar na construção do hotel. Mas o que mais repercutiu foi uma foto do prédio da Prefeitura, cuja telhado havia desabado, com cabras pastando em seu interior. A imagem, de tão surreal, ganhou as páginas da chamada grande imprensa.

Depois de Walber, vieram, em ordem cronológica, Djalma, Daniel, Messias e Rilva. Desses, Daniel fez uma gestão apenas regular, pontificada por algumas obras de vulto, mas inadequadas na sua concepção. Messias começou bem o seu primeiro mandato, com boas iniciativas nas áreas de saúde, educação e infra-estrutura. Na segunda gestão, porém, perdeu o gosto pelo poder. Passou a ser muito mais médico do que prefeito. Deu espaço para que outras pessoas agissem em seu nome e desviasse o foco da ação de governo. Djalma, em que pese a estatura humana, foi insípido como gestor.

Riuva Luiz está terminando o seu segundo ciclo e não há o que destacar em sua defesa. Vai entrar para a história como o prefeito em cujo mandato a infraestrutura da cidade se deteriorou. De tal forma que recebeu o apelido de tatu, em alusão ao estado crítico da paisagem urbana.  Não que isso seja motivo de ofensa a Rilva. Pelo contrário, ele até se vangloria de ser chamado assim. Na campanha pela reeleição, adotou o animal como símbolo, como a exaltar a buraqueira em que se transformaram as vias da cidade, numa atitude sugestiva de deboche.

Quem chega a Viana parece estar diante de um lugar perdido no tempo. A cidade é carente de tudo. A principal avenida, que funciona como corredor de entrada, é palco de lama, buracos, lixo e esgoto. Recentemente a prefeitura tentou recuperá-la. O remendo ficou tão ruim que, dias depois, um veículo atolou em pleno asfalto. O matadouro público está fechado por ordem da justiça, em face da imundície que cercava o abate de animais. As unidades de saúde funcionam precariamente. Não há investimentos.

Mas existe um consenso de que a cidade, por sua importância histórica e localização geográfica privilegiada, deve ser preparada para ser eixo de desenvolvimento regional. Em que pese a carência de serviços públicos, possui agências do Banco do Brasil, da Caixa Econômica, do INSS e dos Correios. O governo estadual planeja também implantar uma estrutura do programa “Viva Cidadão”, para a expedição de documentos. Pouco, é verdade, para reforçar a sua condição de pólo catalisador de progresso.

Quando Roseana Sarney criou as gerências regionais, o município foi escolhido para sediar um daqueles núcleos de poder. Como sabemos, sem orçamento próprio, essas unidades acabaram inviabilizadas pelo peso da burocracia e da inapetência política. Mas, em Viana, deu respostas interessantes. Foi o período em que o município recebeu maior atenção do governo estadual, com a expansão de água potável, energia elétrica e estradas vicinais.

O certo é que, em Viana, passado e presente não conseguem se harmonizar, porque um é muito maior que o outro e inexiste um sentido de continuidade. Mas o município terá que acertar as contas com o seu destino. Isso implica compreender uma lição crucial: construir uma cidade é tarefa de todos. Não adianta apenas eleger um gestor. Importa fazer parceria com ele, ajudá-lo a governar e fiscalizá-lo em suas ações.

Viana é uma cidade belíssima do ponto de vista natural e histórico. Não pode comprometer esse patrimônio por conta da inércia e da falta de compromisso daqueles que se investem da função pública. É urgente recuperar a sua face urbana e investir em desenvolvimento social. Porque a história, tão pródiga com o seu passado, não vê com bons olhos o presente. E o futuro resulta do vértice formado por um e por outro.



Escrito por Nonato Reis às 22h03
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