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Blog de Nonato Reis


                                                                    Batom e sedução

 

 

“Batom realça e seduz. No teu rosto falta luz!”

A frase tocou-lhe o espírito como uma chicotada. Pega de surpresa, viu-se acorrentada por mãos invisíveis. De súbito quis reagir, defender-se do que lhe parecera uma indelicadeza, no mínimo; ou um insulto grosseiro na melhor definição. Sem o recurso da voz e quase órfã de movimentos, optou por uma defesa cúmplice.

 Deu um salto da cadeira, correu na direção do banheiro, abriu a bolsa. Nas mãos trêmulas segurou o cilindro dourado de ponta vermelha e com ele redesenhou as linhas da boca, esfregando os lábios entre si até obter uma tonalidade homogênea. Consultou o espelho. Havia luz?

Havia desconforto. Em seis meses de convívio, acostumara-se com o sorriso fácil e o jeito sedutor daquele garoto de ar displicente. Diante dela, derramava-se em elogios. Tinha sempre uma palavra de carinho ou uma frase poética escrita em pedaços de papel a lhe emoldurar a beleza. Como nestes versos quase simplistas:

“Meu coração é bobo, atrevido

Chato, insolente, vadio...

Mas tem bom gosto,

Sabe o que quer:

Você! Quem não vê?”

Feito manteiga derretida, abriu uma ponte com a alma: “Não sei mais viver sem os seus bilhetinhos”.

Brincavam num chão de areia movediça. Compreendeu- talvez tarde demais – que se havia metido numa arapuca insólita. Decidiu, então, recuperar o terreno perdido, delimitar os espaços.“Entre mim e ti não pode haver nada além de amizade. Ainda que eu quisesse ... quem pode mandar no coração? É a lei da vida.”

Como aluno aplicado, aceitou as regras do jogo. Continuou a tratá-la com mimos e gentilezas; mas nunca mais com desvios de intenção.

Achando que ganhara o tabuleiro, expôs a rainha. E foi assim que aquele bilhete explosivo a pegou no contrapé, lançando jatos de luz sobre a alma velada. Quando retornou à sala de redação com os lábios tomados de um vermelho escarlate e contemplou o sorriso de vitória no rosto dele, pôde afinal mensurar o tamanho do golpe. Viu-se refém de si própria, completamente desnuda. Na dualidade da vida romperam-se os diques de proteção; refizeram-se as linhas do coração. Havia luz?

Incandescia.



Escrito por Nonato Reis às 16h36
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Sucessão: o fator Washington Oliveira

 

 

Não pretendia voltar a escrever sobre a sucessão de São Luís pelos próximos dois meses. Pensava me ocupar dessa matéria em março, quando o quadro eleitoral já estaria melhor assentado. No entanto, o ingresso do vice-governador no tabuleiro de 2012 obriga-me a retomar o assunto, em razão da alteração que pode provocar no deslocamento das peças, embora do ponto de vista da distribuição do voto, a mudança seja mínima.

Dizem que a mecânica, e mesmo a química da política se assemelha a um jogo de xadrez. O movimento de uma peça pode impor modificações em todo o tabuleiro ou preparar o espaço para uma jogada futura, que pode ser fatal. Por isso é tão importante conhecer a estratégia do adversário e abortar o seu desfecho; visualizar os cenários com todo o conjunto de possibilidades que eles carregam.

A pré-candidatura de Washington Oliveira obedece a um plano de José Sarney, que o faz aparentemente com um olho em 2012, mas na verdade focado em 2014. No Maranhão poucos, como ele, têm o dom da clarividência, aquela faculdade que permite enxergar além dos formalismos e do plano convencional.

Sarney sabe que o vice-governador não tem cabedal para ameaçar a eleição de Castelo em São Luís. Tampouco está preocupado em conquistar a prefeitura da capital, coisa que nunca tentou para valer, exceto em 1985, com Jaime Santana, e em 1992, com João Alberto. De lá para cá, os candidatos lançados pelo grupo foram mais uma espécie de faz-de-conta. Fosse o contrário, poderia cooptar Edivaldo Holanda Junior, que até andou se oferecendo para o grupo.

O que Sarney deseja é fechar os caminhos de Flávio Dino, impedindo-o de chegar forte em 2014. Neste aspecto Washington cumpre um papel estratégico. Com sua entrada em cena, tumultua o ambiente em que se alinhavam as coligações eleitorais, estimula o processo de deserção na seara de Dino e, mais importante, traz o governo federal para dentro do jogo político.

Mesmo com o PT dividido, a candidatura do vice amarra a aliança formada em torno de Roseana em 2010, garantindo assim a unidade do grupo, que com Max Barros parecia ameaçada. E deve trazer para a sua coligação siglas ou lideranças que, em tese, se alinhariam a Flávio Dino. Falam até que Lula e Dilma vão participar da campanha dele, coisa que não acredito, porque, mesmo tendo trânsito livre no PT nacional, Oliveira não desperta esse interesse todo do partido, e a cúpula tem outras prioridades para 2012, como a eleição de Fernando Haddad em São Paulo.

Mas a idéia de Sarney é que, diminuindo os espaços de manobra de Flávio Dino, estimulando a cizânia em seu grupo, e com isso cortando o seu tempo de exibição no rádio e na TV, o comunista, que já vive um dilema hamletiano sobre se entra ou não no processo eleitoral, se afaste da disputa de São Luís. Para Sarney é preferível ter Castelo prefeito, cuja ambição política não vai além de um mandato de senador, a ver Flávio Dino reforçado com uma prefeitura de capital.

A pergunta que fica agora é: Flávio Dino vai morder a isca e se retirar do ambiente de 2012? Por mais estragos que o fator Washington possa provocar em seus planos, o maior adversário do comunista é ele próprio. Com seu jogo de metáforas e frases veladas, Dino pode provocar uma verdadeira debandada junto às forças que se aglutinam em torno do seu nome. Numa dessas afirmações, deu a entender que não disputaria a eleição deste ano, ao anunciar que continuaria dirigindo a Embratur em 2012.

A repercussão disso dentro do seu grupo foi tão forte que o próprio Flávio Dino teve que vir a público e desmentir a si próprio. O dilema do comunista nem é propriamente 2012. Seu olhar está voltado é para 2014. Ele imagina que, disputando a prefeitura de São Luís, e na hipótese de perder a eleição, compromete o projeto de chegar ao governo do Estado, o que me parece uma tese sem substância. Riscos existem em todos os cenários. Não disputar 2012 é um equívoco ainda maior.

Desde que passei a escrever para este JP há cerca de oito meses e a me debruçar sobre a sucessão de São Luís, mantenho a mesma posição do início. Num período em que Castelo enfrentava os piores índices de reprovação e todos o consideravam acabado politicamente, sustentei a tese de que ele seria o senhor de 2012. O tempo passou, ele se recuperou e hoje todos concordam que é favorito para a reeleição.

Também disse que Flávio Dino ocuparia o outro pólo da sucessão como o único nome capaz de derrotar Castelo. E mais: que ele deveria disputar o pleito, exatamente por essa posição de destaque em São Luís. Permaneço com essa visão. Por algumas razões. Ninguém abdica de poder. Flávio Dino é a maior liderança da oposição na capital. Aos olhos do eleitor, ele é o anti Castelo, aquele que deverá inaugurar uma nova ordem política em São Luís, para, a partir daí, tentar conquistar o Estado. Se não disputa, frustra a sua maior base eleitoral, aquela que o alçou à condição de timoneiro dos adversários de Sarney.

Sem ele no jogo, a eleição termina no primeiro turno. Com ele, todos os cenários levam o pleito para uma segunda rodada de votos. Por isso, mesmo que a entrada do vice-governador imponha obstáculos adicionais, ainda assim Flávio Dino é nome certo para enfrentar Castelo num eventual segundo turno, quando aí sim a refrega se daria em igualdade de condições e ele poderia formar um arco de alianças bem mais consistente.

No resumo da ópera, a entrada de Washington Oliveira não modifica, substancialmente, a intenção de votos do eleitor, mas altera a arquitetura do quadro sucessório, além de beneficiar Castelo, em primeiro plano, e Sarney, num cenário de fundo. Somando-se isso a um eventual afastamento de Flávio Dino, Castelo comemora, por antecipação, a conquista de mais um mandato de prefeito, sendo grato tanto a Dino quanto a Sarney. Com o detalhe de que, do ponto de vista ideológico, é do lado de Sarney que Castelo melhor se identifica.

Se Dino ficar de fora da sucessão, passa à história, como bobo e medroso. Bobo por não saber ler um quadro tão claro e se deixar fazer o jogo do adversário. Medroso, por se acovardar diante de um desafio, perfeitamente transposto. Num dos meus artigos disse que Dino acabaria por se decidir em disputar a eleição. Continuo com esse palpite. Porque de todos os pecados, o pior e mais perigoso é o da omissão. E não há nada mais grave, na política, do que decepcionar o povo.

*Nonato Reis é jornalista e escreve para o Jornal Pequeno aos domingos, quinzenalmente.

 



Escrito por Nonato Reis às 17h38
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Lembranças de Repórter

 

Arimatea Athaíde é dessas figuras que marcam época pela sua extrema capacidade de produzir fatos e de provocar mudanças na ordem estabelecida das coisas. Com sua personalidade única e uma maneira toda própria de raciocinar, age como se ele próprio fosse o núcleo do ambiente. E faz com que tudo ao redor gravite em torno dele e atue para obedecer ao seu comando. Despreza idéias e sugestões que não se coadunem com a sua visão e o seu entendimento.

Foi o todo-poderoso secretário de Comunicação do governo João Castelo (1979-1982), com quem tinha livre trânsito e gozava de absoluta confiança. Dizem que ele e José Burnett eram as únicas vozes que Castelo ouvia e cujas orientações seguia. Meu primeiro contato com ele não foi nada prazeroso. Junto com Cláudio Farias, fui levado por Nilson Amorim, professor do Curso de Comunicação Social da UFMA, para acertar um estágio na SECOM.

Ao adentrarmos o seu gabinete, vendo a mim, Cláudio e Nilson em chinelas e mangas de camisa, o secretário foi logo enfatizando a importância da indumentária na apresentação de um profissional. Dirigindo-se especialmente a Nilson, falou em linguagem ácida e direta. “Eu não acredito em professor que não usa terno e gravata”. Tomado de susto, Nilson gaguejou. Tentou argumentar que a roupa era apenas um acessório e que o que contava mesmo era o conteúdo. Arimatea se manteve firme. “Se o sujeito não usa terno, não acredito nele”.

No primeiro dia de estágio me apresentei com a melhor roupa de que dispunha na minha época de estudante arruinado. Não adiantou. Fui barrado pelo chefe de redação, Raimundo França, que me recomendou. “Volte para casa e trate de vestir uma camisa decente”. Já ia atingindo a porta, quando ele complementou: “e não se esqueça de trocar esse chinelo por um sapato social. Isso aqui é um ambiente de respeito”.

Fui embora com a garganta pegando fogo, para só retornar à SECOM muito tempo depois, já formado e curtido pelos anos em redação de jornal. O episódio seria lembrado à exaustão pelo próprio França, quando nos tornamos parceiros de ofício e amigos no Jornal de Hoje. Sempre que saíamos para beber e eu invocava o registro, ele dizia com um misto de gozação e de verdade. “Reis, tu querias que eu te deixasse trabalhar na SECOM vestido de mendigo? Se eu fizesse isso, quem perderia o emprego era eu”.

Quem quase perdeu o emprego foi a equipe de redatores que trabalhava com Athaíde. E olha que era um grupo de grandes jornalistas, onde pontificavam Ribamar Correa, Antonio Carlos Lima, o Pipoca, e Ademir Santos, entre outros. Arimatea planejou a edição de um livro sobre o Governo Castelo e deu a cada um a incumbência de redigir um capítulo. Ao passear os olhos sobre o material, quase teve um infarto. Por entender que aquilo não passava de lixo, rasgou tudo e jogou fora. O próprio assumiu a tarefa de escrever o livro sozinho. E o fez com zelo.

Fui ter contato direto com ele em 1985, durante a campanha de Dona Gardênia para a Prefeitura de São Luís. O editor-chefe do Jornal de Hoje, conhecido como De Campos, chamou-me em sua sala com a seguinte recomendação: “Nonato, você vai ser o assessor de imprensa da campanha. Mas tenha cuidado ao redigir os textos, porque eles serão revisados pelo Arimatea”. Não me intimidei com a missão. Concluído o primeiro release, que fiz e refiz várias vezes, submeti-o ao crivo do chefe, certo de que ele não encontraria um erro sequer.

Ledo engano. De posse de uma caneta vermelha Arimatea foi riscando e reescrevendo a matéria de cima a baixo. Terminado o trabalho, olhou para mim, que a essa altura fumaçava de raiva, sorriu e disse: “meu rapaz, você escreve bem”. E eu, tomando o elogio como gozação, respondi: “tão bem que o senhor bordou o texto da primeira à última linha”. E ele, “ora, isso é de menos; fique sabendo que a maioria dos textos que leio rasgo e jogo no cesto de lixo. O seu foi preservado”.

Perfeccionista, Arimatea não tolerava erros nem vícios de redação. Odiava o uso do pronome “que”. Era capaz de escrever um texto sem mencionar essa palavra uma única vez, utilizando o recurso de parágrafos curtos. Fico imaginando sua reação ao ver, na mídia impressa, o uso abusivo de expressões como “à nível de” “erário público” “através de”, “há dias atrás” e por aí vai.

Só para se ter uma idéia do zelo de Arimatéa com a escrita, um dia, lá pelas 10 da noite, vendo minha agonia para fechar a edição, que dependia apenas da entrega do seu artigo, Arimatéa virou-se para mim e comentou, entre orgulhoso e bem-humorado. “Reis, sou um sujeito que prima pela correção do texto. Certa vez, havia entregado um artigo em O Estado do Maranhão, após ler e reler várias vezes. Ao chegar em casa, descobri que faltava uma vírgula. Peguei um táxi, voltei ao jornal e coloquei a vírgula”.

Em 1989 Arimatea Athaíde colocou o Jornal de Hoje em pandemônio. Ele havia aportado na redação com a incumbência de Castelo de dar jeito no jornal. Numa reunião com os chefes setoriais, da qual participei, anunciou, como medida redentora, que o JH circularia a partir dali com o dobro de páginas, passando de 12 para 24. Naquela época o Jornal de Hoje enfrentava uma crise financeira terrível. Os repórteres cumpriam suas pautas por telefone, porque não tinha dinheiro nem para botar gasolina nos veículos.

Fiz ver a Arimatea que naquelas condições não havia como ampliar o número de páginas. Mas ele, como sempre, manteve a decisão. “Jornal tem que ter volume. Se for o caso, eu mesmo escrevo todas as páginas”. Sem alternativa, peguei os releases sobre carro e moda, que chegavam do Rio de Janeiro e São Paulo pelo correio, e fui editando página por página. Quando Arimatea viu aquilo, pulou de raiva. “Como é que você me faz um negócio deste. Onde você aprendeu a fazer jornal desta forma? Pegue suas coisas e saia daqui. Está demitido”. Fui para casa feliz da vida, certo de ter tirado um peso das costas.

Horas mais tarde os colegas de trabalho me ligavam para dizer que toda a equipe havia se demitido, por absoluta discordância com o chefe. No dia seguinte, a diretoria chamou-me de volta, após pôr ordem na casa. Arimatéa não seria mais editor-chefe do JH, ficando suas funções reduzidas a articulista.

Contudo, a parte mais engraçada desse episódio foi um atrito entre Arimatea e o poeta Bernardo Coelho de Almeida, que escrevia os editoriais do JH. Arimatea gostava de alardear o fato de ter sido correspondente do jornal O Globo. Bernardo, um gentleman, nunca elevava o tom de voz e era incapaz de tratar alguém de forma descortês. Nesse dia, porém, perdeu a paciência. “Arimatéa, deixa de conversa. Correspondente coisa nenhuma. Tu escrevias quatro laudas e eles só aproveitavam meia lauda”. Acabou lavando a alma da equipe e dela se tornando seu porta-voz.  



Escrito por Nonato Reis às 19h23
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A agonia do Maracu

 

 

            O rio Maracu, no município de Viana, é um dos muitos cursos de água doce do Maranhão marcados para desaparecer do mapa aquático. Poucos rios, no entanto, têm sido tão fustigados pela ação criminosa do poder público quanto o Maracu. Há décadas seu leito começou a ser assoreado com a construção de passagens de terra, e as árvores que protegiam suas margens foram sendo dizimadas, numa escalada progressiva, inexorável. Isso ainda num tempo em que preservação ambiental era um termo dissonante na pauta dos governos e da sociedade civil.

            Os anos se passaram, criaram-se leis específicas para a utilização dos recursos naturais; assinaram-se convenções para disciplinar a ação do poder público sobre o patrimônio natural; estabeleceu-se o consenso de que as políticas de desenvolvimento não podem desvincular-se da preocupação com o verde. Todo esse cipoal de boas intenções, no entanto, ficou restrito aos manuais e códigos de conduta.

            O rio Maracu é uma espécie de fio condutor dos estoques de água doce de Viana. Ele se estende como uma ponte fluvial entre os lagos do Aquiri, na divisa com o município de Matinha; e de Viana, na fronteira com Penalva e Cajari. Decretar sua morte é assinar o atestado de óbito do ecossistema de uma vasta região da Baixada, que se mantém graças a um delicado equilíbrio de enchente e vazante. E, em última instância, é selar o destino de populações ribeirinhas, já tão massacradas pela ausência de políticas públicas. 

             Em que pese essa profecia sombria, o poder público segue massacrando os estoques de água doce de Viana sem dó nem piedade. Em 2001 o então prefeito Messias Neto (hoje falecido) entulhou o Lago de Viana a partir do Outeiro do Mocoroca até o Sacoã, numa extensão de mais de 1.000 metros. O argumento foi que era preciso evitar a invasão de água salgada, mas tudo o que conseguiu foi assorear ainda mais o leito do lago.

            Anos antes, quando da construção de uma ponte de concreto sobre o Maracu, a construtora responsável pela obra aterrou o rio, na altura do povoado de Ibacazinho, de uma margem à outra, para facilitar o trânsito de suas máquinas. O prefeito de então, Daniel Gomes, pegou carona na irregularidade e todos os anos, durante o fenômeno conhecido por ‘abaixamento’ (quando as águas das cheias começam a vazar) mandava refazer o aterro, sob a alegação de que precisava garantir o abastecimento de água potável da cidade.

            Atualmente seu leito de mais de sete quilômetros é entrecortado por três barragens de terra. Uma a dois quilômetros da sede de Viana; outra no Ibacazinho; e uma terceira no lugar chamado Colheireiras, já próximo a sua desembocadura no lago do Aquiri. Não satisfeito, o prefeito Rilva Luiz mandou construir uma nova passagem de terra, desta feita, margeando o rio, no povoado de Ibacazinho. Feita sem orientação técnica, a obra joga uma pá de cal sobre a agonia do Maracu.

            O mais curioso é que, apesar de todo o aparato de órgãos e leis, o crime perpetrado no principal rio de Viana jamais sensibilizou as autoridades. Uma espessa cortina de silêncio paira sobre aqueles a quem compete fiscalizar, denunciar e promover a recuperação do patrimônio ambiental. Assim, sob o manto escandaloso da omissão, um belíssimo curso natural de água, que ajudou a formar gerações, dá os últimos suspiros. A natureza não nos perdoará tamanha estupidez.



Escrito por Nonato Reis às 06h21
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2012: Flávio Dino na berlinda

 

Janeiro chegou abrindo as portas de um ano carregado de simbolismo. Não apenas em função da marca histórica dos 400 anos, mas também pelo feixe de possibilidades que pode imprimir no tecido político da capital e também do Estado. Há um entendimento de que 2012 se estende como uma ponte para 2014, pela forte conexão entre ambos. Assim o caminho que se pavimentou até aqui pode ser uma mera continuidade. Ou servir de plataforma para o futuro.

Não é por menos que Flávio Dino, hoje assentado no vértice de 2012, parece disposto a afastar as nuvens espessas do seu horizonte mais próximo e a se debruçar sobre a sucessão de São Luís com determinação. Duas reuniões entre lideranças do campo das oposições, realizadas no dia 16 de dezembro, uma na Assembléia Legislativa, e outra na casa do deputado Marcelo Tavares, serviram para clarear o ambiente e jogar pressão sobre o comunista.

Dos encontros fizeram parte os deputados Bira do Pindaré (PT), Rubens Pereira Júnior (PCdoB) e Marcelo Tavares (PSB) e Flávio Dino (PCdoB). O ex-deputado federal Roberto Rocha (PSB) esteve presente apenas no evento da Assembléia. Prevaleceu o entendimento de que a oposição precisa lançar um nome de peso, se quiser sonhar, objetivamente, com a prefeitura de São Luís. Não que Castelo seja imbatível. Não é. Mas exige concorrente qualificado.

O grupo fez ver a Flávio Dino que, na disputa com Castelo, ele é o curinga. Mais que isso: trata-se do único nome que pode aglutinar os descontentes à esquerda do prefeito. E que quanto mais ele protelar a decisão de concorrer dará combustível para que a oposição se fragilize, numa diáspora que pode oferecer musculatura a Castelo e também ao grupo de Roseana.

Houve até quem sugerisse o lançamento da candidatura logo em janeiro, para prevenir o processo de deserção e também evitar que outros nomes do grupo se lancem. Prevaleceu, no entanto, a tese de esperar o cenário se decantar até março, quando, aí sim, o comunista se apresentaria para o eleitor com pompa e circunstância.

Há, porém, uma nota dissonante. O grupo alinhado a Flávio Dino não é um todo harmônico. Nas reuniões do dia 16, deixaram de comparecer, por vontade própria ou por falta de convite, lideranças como Eliziane Gama (PPS), Edivaldo Holanda Junior (PTC) e o próprio Tadeu Palácio (PP). Ficou a impressão, ainda que falsa, de que há um núcleo em torno do comunista, que dá as cartas e planeja, enquanto os demais seguem, ou fingem seguir o traçado. Num contexto dominado pela disputa de egos, essa é uma atmosfera perigosa.

No plano de possibilidades, a leitura corrente é de que o prefeito João Castelo melhorou a sua performance, com o projeto de recuperação urbana. Mas não ao ponto de sacramentar a reeleição. Longe do que foi prometido, a operação plástica nas ruas e avenidas assumiu o formato de um remendo.  Cerca de quatro meses após o lançamento do trabalho, apenas a avenida Daniel de La Touche teve a sua recuperação concluída, o que projeta no ar o cheiro de fracasso.

A política é a arte do, aparentemente, imponderável, tal a sua natureza dinâmica. Mas hoje, há de nove meses das eleições, pode-se divisar alguns pontos já delineados. O primeiro, cristalizado desde 2008, com a definição das eleições daquele ano: o de que o prefeito é um dos protagonistas de 2012. O segundo, também originado a partir daquele pleito: o de que Flávio Dino está inscrito no outro pólo da sucessão.

Pode até surgir uma terceira via, por conta de Max Barros, que permanece incógnita; e de Edivaldo Holanda Junior, que tem fôlego para embolar o meio de campo. Mas isso está muito mais ligado aos movimentos de Dino do que à própria mecânica do processo.

Como se observa, o pêndulo da sucessão está apontado em Flávio Dino. Para onde ele for, provoca alterações profundas no ambiente político. Mas o momento é de tomar atitudes. Porque se ele se demorar na inércia, abre espaço para cindir a oposição, transformando-a em um cinturão de asteróides, parte se alinhando a Castelo, e outra parte rumando para direções diversas, inclusive a caminho de Roseana. E não há nenhuma garantia de que tais fragmentos retomem o seu ponto de origem na perspectiva de 2014. Como reza a lenda indígena, chegou a hora de a onça beber água.



Escrito por Nonato Reis às 02h26
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Shoppping da Ilha, confusões e trapalhadas

 

Fim de ano é tempo de festa, risos, celebração, compras, troca de presentes, planos e sonhos. Para os consumidores de São Luís, que esperavam ávidos pela abertura de um novo centro comercial, a época talvez vá ficar marcada por um sentimento menos luminoso. A inauguração do Shopping da Ilha tinha tudo para ser um grande acontecimento. Mas, ao contrário das previsões, acabou se transformando num episódio lamentável, desses que se prefere esquecer, para não ter que lastimar, sempre que invocada a sua lembrança.

O grupo Sá Cavalcante anunciou o novo shopping de São Luís como o maior e mais luxuoso da cidade. Desde o início de sua construção criou-se uma enorme expectativa em torno do empreendimento, cuja inauguração foi marcada, inicialmente, para o dia 30 de novembro de 2011. Os lojistas que compraram espaços no projeto asseguram que a construtora jamais aventou a possibilidade de que houvesse atraso no cronograma da obra.

Mas o ritmo aparentemente lento no canteiro de obras do Maranhão Novo sinalizava descompasso entre planejamento e execução. E isso ficou evidente quando o mês de novembro passou e o shopping permaneceu inacabado. Remarcaram a inauguração para o dia 13 de dezembro, mas a essa altura o que era dúvida virou certeza: a promessa não se cumpriria, mesmo com as obras varando a madrugada. Uma semana antes de completar o prazo um novo anúncio empurrou a data festiva para 20 de dezembro.

Até uma pessoa leiga sabia que, pelo estágio das obras e pelo tamanho do projeto, o Shopping da Ilha levaria pelo menos dois ou três meses mais para ser entregue. No entanto, a pressão pelo cumprimento dos prazos, o prejuízo dos lojistas com o encalhe dos estoques e a ânsia por fazer retornar o investimento aplicado, levaram a Sá Cavalcante a “inaugurar” uma obra incompleta.

No dia da abertura o shopping mais parecia um canteiro de obras, com entulho por todos os lados, montes de barro, tapumes dispersos a esmo, operários em atividade, andaimes e guindastes. Num gesto temerário, liberaram a entrada principal do prédio, guarnecida por uma torre projetada para 15 andares, ainda em plena construção, criando uma situação de altíssimo risco.

No interior da estrutura, mais desorganização. Os sinais de obra em fase de acabamento dominavam a paisagem, com as escadas de concreto inativas, entulho, poeira e cheiro forte de cola e tinta a exalar pelo espaço. Pior foi a inércia do sistema de ar refrigerado, que obrigou os consumidores a enfrentar forte calor. Nas poucas lojas abertas, os vendedores, com o suor escorrendo pela face, improvisavam leques de papelão para se refrescarem.

Diante de tanta promiscuidade e falta de respeito com os clientes, uma questão saltou aos olhos: a escandalosa omissão dos órgãos responsáveis pela fiscalização de obras físicas desse porte. O CREA/MA, o Corpo de Bombeiros, o Ministério Público e a própria Câmara Municipal fecharam-se em pesado silêncio. Não deram entrevistas, não expediram nota. Não fizeram absolutamente nada, mesmo diante dos protestos estampados nas redes sociais e nos blogs de informação. É como se, de repente, a sociedade se visse desprotegida ou mesmo órfã dos seus organismos de representação.

Em contrapartida, o Shopping da Ilha parece ocupado por ilustres parceiros. Uma das grifes de roupa mais conhecidas do país estampa a fachada da loja do filho do prefeito João Castelo. Outra, do setor de fastfood, pertence a um membro da família Sarney, o mesmo que já é dono de outra loja, da mesma marca, no shopping Rio Anil.

Em que pese os percalços, na pré-inauguração o prefeito João Castelo, mesmo de terno e gravata e em meio a um calor infernal, não parecia nem um pouco incomodado. Chegou a posar para os fotógrafos todo sorridente, ostentando um cocar do Bicho Terra, ao lado de José Pereira Godão, de Pergentino Holanda e de Walter Sá Cavalcante, um dos donos da construtora responsável pelo shopping.

Os lojistas é que pareciam nada satisfeitos. Gastaram muito dinheiro, programaram-se para vender seus estoques durante o mês de dezembro, e agora vão ter que amargar prejuízos. Pelo menos dois deles prometem ingressar na justiça contra o shopping, requerendo ressarcimento por danos materiais. É uma pendenga que deve se arrastar por anos a fio. Até hoje tramitam no STJ processos contra o shopping São Luís, que remontam à data de sua inauguração.

Apesar do coro dos descontentes, o grupo Sá Cavalcante jamais se pronunciou sobre os atrasos nas obras do shopping . Releases publicados na mídia retrataram a inauguração como um evento magnífico e coroado de êxito. Uma postura no mínimo infeliz. Quem quer conquistar clientes precisa tratá-los bem e agir com transparência, ainda mais num mercado já saturado pela concorrência. O Shopping da Ilha abriu suas portas com o pé esquerdo. Na linguagem dos supersticiosos, isso se chama mau agouro. Que a água benta trazida de Fátima (Portugal) dissipe as nuvens sombrias.



Escrito por Nonato Reis às 12h18
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