Olhar dinâmico
Nonato Reis
nonatorreis@bol.com.br
(Coluna publicada no jornal Atos e Fatos)
reproduzida em www.nonatoreis.com.br
Alcântara na ONU
Semana passada Alcântara recebeu a visita de um observador da Organização das Nações Unidas (ONU), que veio ao Maranhão apurar denúncias de negligência do poder público com o povo daquele município, especialmente as comunidades localizadas no entorno da base de lançamento de foguetes. O fato passou quase despercebido porque a imprensa, sem uma razão plausível, manteve-se indiferente. Nenhum repórter de veículos locais ou correspondente de agências nacionais e estrangeiras cobriu a agenda do consultor da ONU. Suas recomendações e alertas, por isso mesmo, passaram ao largo da opinião pública. Mas o governo, certamente, está apreensivo com o relatório que vem pela frente.
Sem meias palavras, o enviado da ONU confirmou aquilo que é de domínio público e que o governo faz de tudo para manter sob o tapete. Disse que o Estado é omisso com os interesses das comunidades rurais atingidas pelo projeto espacial, não investe em qualidade de vida, não respeita os direitos humanos e jamais cumpriu as promessas firmadas com os alcantarenses. Por conta disso, anunciou que vai propor no seu relatório a suspensão do plano de relocação de famílias. Se depender desse documento, daqui para frente nenhum trabalhador rural será remanejado para as agrovilas, sem que se dê a ele condições de vida digna.
O relatório vai reforçar também as ações que correm nos fóruns da justiça nacional e internacional, denunciando o governo brasileiro por violação dos direitos humanos e insensibilidade quanto às reivindicações do povo negro, remanescente de quilombos. Por fim, atestará também a falência do poder público de Alcântara. Nem todos sabem, mas o prefeito vive enredado numa teia de denúncias. São salários de servidores em atraso, colapso da rede de saúde, fechamento das escolas, suspeita de improbidade administrativa. Como o comércio se alimenta dos recursos públicos, a maioria das lojas cerrou as portas e a economia do município entrou em coma.
O leitor poderia dar de ombro com a descrição de um quadro tão comum no cenário dos municípios brasileiros, se não se tratasse de Alcântara, um lugar onde se construiu a melhor base de lançamento de artefatos do Planeta, cujas operações implicam uma economia de gastos de 30%, comparada a qualquer outra base espacial do mundo. Países como EUA, China, Índia, Rússia, Ucrânia, França, Paquistão e Israel disputam o direito de utilizar essa estrutura, pagando a título de aluguel cerca de 2,5 milhões de dólares por cada arremesso à órbita da Terra. Óbvio supor que um negócio assim gere expectativas de natureza social.
Quando os alicerces da base começaram a ser erguidos, no início dos anos 80, chegou-se a imaginar Alcântara no centro do mundo moderno, deslocando-se de uma órbita estacionária para um patamar de crescimento econômico com qualidade de vida. Contudo, a realidade tem construído outro enredo. Comunidades inteiras foram retiradas de suas terras e transferidas para áreas de solo improdutivo, onde passaram a viver como indigentes; boa parte da superfície do município foi doada para a base, que passou a atuar como um corpo independente; criou-se ali um naco de excelência dentro de um território de excluídos.
A renda média mensal das famílias é de 100 reais. Existe apenas um hospital e uma ambulância para atender 22 mil habitantes. São 48 comunidades sem escola. Das unidade de ensino do município, 28% são de taipa. O trajeto da casa para a sala de aula é feito a pé por 33,88% dos alunos e 90,91% das crianças e adolescentes trabalham na roça. Água tratada só contempla 42,74 % dos domicílios. Na zona rural, 72,73% das famílias jogam dejetos a céu aberto. Coleta de lixo é uma expressão desconhecida para 82,64% das comunidades. Mais de 70% da zona rural não dispõem de energia elétrica.
De todos os investimentos realizados na base, pouco ou quase nada se reverteu em benefício do município. A plataforma de lançamento explodiu no dia 22 de agosto do ano passado, matando 22 técnicos. Nas discussões e projetos para a reabilitação dessa estrutura predomina um silêncio aterrador sobre o direito daquela gente à terra, moradia, escola, saúde, emprego, vida decente. Alcântara não pode continuar sendo vista de forma obtusa, como uma pista de decolagem, apenas. As comunidades querem uma política agrícola sustentável, demarcação e titulação das áreas remanescentes de quilombos, e, mais importante, a criação de um fundo sobre o lucro com as operação de lançamento. Espera-se pois que o relatório da ONU tenha a força de trazer as autoridades para a mesa de negociação. Porque desfocado do homem de nada vale o progresso tecnológico.
Frases
"Fizemos um fantástico trabalho com o carro, por isto acho que posso conseguir um pouco mais".
Do piloto de Fórmula 1, Rubens Barrichello, demonstrando confiança em ganhar o GP do Canadá, neste domingo.
"Se formos convidados, estamos prontos para nos juntar"
Do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, sobre a possibilidade de o Brasil integrar o G-8, grupo que reúne os 7 países mais ricos do mundo mais a Rússia
Nonato Reis escreve neste espaço aos domingos
Escrito por Nonato Reis às 11h53
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