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Olhar dinâmico

 Nonato Reis

 nonatorreis@bol.com.br

 reproduzida em www.nonatoreis.zip.net

 A quem serve Sarney?

A pergunta surgiu de chofre, inesperada: “O que Sarney fez pelo Maranhão nesses 40 anos de domínio?”. Foi outro dia. Viajava num carro de passeio de Angra dos Reis para a cidade do Rio de Janeiro. Dentro do veículo, eu, uma velha conhecida de Angra que me hospeda em sua casa, sempre que decido curtir férias naquele paraíso; mais duas parceiras de recesso; e o condutor, um colega de trabalho dessa minha amiga, responsável pela indagação. Contemplava, absorto, a paisagem exuberante da Serra do Mar, pontificada de pequenas montanhas verde-sumo, vales sinuosos e a planície azul-turquesa, formada pela massa líquida do oceano Atlântico.

Do mesmo modo incontinente, respondi: “nada”. Pronto, foi uma espécie de senha para a acalorada discussão que se estendeu pelas duas horas que separam Angra do Rio. Com uma energia incontida minha amiga tomou a defesa do velho cacique. Disse que o Maranhão deve tudo a Sarney. “Foi ele quem construiu o Porto do Itaqui; pavimentou a BR-135, ligando a capital do Estado a Teresina, no Piauí, e lá fazendo a conexão com o restante do país; implantou a Universidade Federal do Maranhão e a Federação das Escolas Superiores, embrião da Universidade Estadual; construiu a ponte do São Francisco e a Barragem do Bacanga. De modo que considero uma injustiça dizer que o trabalho do Sarney é nulo”.

Difícil a essa altura explicar que o meu “nada” era uma espécie de metáfora. Disse que não desconhecia todas essas iniciativas e até acrescentei outros feitos do período oligárquico como a construção da hidrelétrica de Boa Esperança, a edificação dos primeiros conjuntos residenciais em São Luís, o projeto da ferrovia norte-sul, enfim, o lançamento das bases estruturais para um novo patamar de desenvolvimento. Tudo isso, porém – acrescentei – perdeu força diante da aridez da paisagem social. Quando Sarney assumiu o governo estadual em l965, prometendo fazer uma revolução política com a ruptura do vitorinismo, o Maranhão alinhava-se entre os Estados com piores índices de analfabetismo. Hoje é líder isolado neste item.

A falta de investimento seguro em Educação neutraliza progressos eventuais em outras áreas, porque neste caso os avanços concentram-se dentro de um ângulo obtuso, onde apenas o contigente privilegiado beneficia-se da riqueza produzida. Isso explica o fato de o Maranhão ser hoje o Estado mais miserável da Federação, com 68% de sua população, de acordo com dados do IBGE, vivendo abaixo da linha de pobreza. Neste patamar estão os analfabetos e todos aqueles sem acesso a bens e serviços elementares como água tratada, energia elétrica, escola, saúde, emprego, habitação, terra, telefone, geladeira.

O discurso da minha amiga pela redenção de Sarney é o mesmo que o próprio senador utiliza em sua defesa: o do investimento em infra-estrutura pesada, da modernização dos métodos gerenciais; da abertura para o grande capital. É uma peça capenga porque minimiza setores essenciais como educação e saúde. E todos sabem: o saber é a ferramenta indispensável para desconcentrar a renda e assegurar a mobilidade da escala social. É o motor que faz com que uma criança nascida sobre o mangue tenha a possibilidade de mudar o curso do seu destino e sonhar com um futuro melhor. E neste quesito, Sarney apanha impiedosamente. Vinte anos atrás São Luís tinha um sexto de sua população vivendo em palafitas. Hoje esse índice está ao redor de um terço. A cidade inchou na periferia, invadiu as áreas alagadas, atolou-se num mar de esgotos in natura.

Em compensação, Sarney ampliou os seus domínios. Tornou-se presidente da República, ganhou reputação de líder nacional, servindo de interlocutor privilegiado dos governos que o sucederam. Agora mesmo é uma espécie de pilar da administração petista. Seu futuro, porém, parece um tanto nebuloso. Nas duas vezes em que precisou do velho cacique como âncora, no Senado, Lula sentiu o chão ceder sob seus pés. Tanto na votação dos bingos como na do salário mínimo, Sarney atuou na contramão. Na última, por exemplo, dos três senadores geneticamente ligados a ele, nenhum votou com o governo. Lula começa a perceber o óbvio. Sarney não serve a ele nem ao país...e muito menos ao Maranhão. Antes, serve a si próprio.

Ricardo no ringue

Ricardo Murad, ao que tudo indica, continuará na disputa eleitoral deste ano. Por teimosia sua e dos Sarney, deve ser confirmado na cabeça de uma chapa que terá o PFL como companheiro e o PMDB como acessório. Na outra ponta, João Castelo seguirá, isolado, com o seu projeto de levar a disputa para o segundo turno. Mas ninguém se iluda, o ex-gerente não passa de um valete sem lança. Poucos apostam uma ficha sequer em seu potencial. A expectativa do grupo que o apoia é fechar com Castelo lá na frente... se houver segundo turno.

 Frases

“Ele pode fazer acordo com quem quiser, menos com o grupo Sarney. Se assim o fizer, eu estarei fora da campanha”

Do tucano Aderson Lago sobre as composições do candidato a prefeito de São Luís pelo seu partido, deputado federal João Castelo

 “Não vamos perder essa medida na Câmara”

Do ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo, sobre a derrota do governo no Senado na votação da Medida Provisória do salário mínimo e as possibilidades de êxito na Câmara dos Deputados

 Nonato Reis escreve aos domingos neste espaço



Escrito por Nonato Reis às 11h23
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Amor que dói

(especialmente dedicado a Loba Mulher - doce menina que apaixona e seduz)

Saudade é fogo ardendo no peito

Flecha encravada, pungente, dorida

Paisagem desfeita, sujeita sem vida

 Ambiente promíscuo, incerto, doente

 Ferida aberta, sangrando no leito

 

Saudade é soma de opostos

Vida e morte casadas, no laço

Lágrima vaga na pele do rosto

Sorriso amarelo, incerto, sem graça

E o grito surdo da alma em desgraça

 

Saudade é querer acuado

Crescente, desesperado

Todo incompleto de mim

Parte repleta de ti

Conflito, aflito sem fim

 

Saudade sou eu aqui, você aí

Lua partida, dividida em nós

Coração opresso, minado por ti

Olhos perdidos, horizonte a sós

Desejo contido, amor que dói



Escrito por Nonato Reis às 09h05
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