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Olhar dinâmico

 

Brizola, contradição e coerência

Nonato Reis

nonatorreis@bol.com.br

reproduzido em www.nonatoreis.zip.net

 

Há algo de diferente na paisagem política do Brasil. Um espaço vago; uma cor fora do lugar; talvez um rosto desfigurado; ou um silêncio perturbador. A saída de cena de Leonel Brizola desarruma o xadrez político montado a partir dos anos 50 do século passado e impõe uma nova dinâmica no movimento das peças. Agora que o velho caudilho dos pampas não está mais entre nós, é hora de reorganizar o tabuleiro, mudar as estratégias do jogo democrático e colocar o líder trabalhista em sua verdadeira dimensão.

O brasileiro, e mesmo outros povos do Planeta, tem uma inclinação toda especial pela reverência aos mortos...Muitas vezes forjando-lhes uma imagem que extrapola o formato real. Daí o cuidado do cronista com o emprego dos adjetivos neste momento de comoção e de luto da alma nacional. Brizola é merecedor das homenagens póstumas da mídia e do sentimento de pesar, quase de idolatria - de cariocas e gaúchos, em especial? A Rede Globo, cujo proprietário já falecido foi ácido desafeto do ex-governador, acertou ou exagerou no tamanho da cobertura dos funerais?

Em artigo publicado na Folha de S. Paulo, a jornalista Eliane Cantanhede, adverte que não se deve julgar os homens públicos pelos derradeiros anos, mas pela atuação durante toda a vida. Tem razão em parte. Cada ato, gesto ou omissão da pessoa é como peças de um extenso mosaico, sinais que se vai deixando ao longo do tempo como marcas indeléveis da personalidade. Pelo ângulo de Eliane, Brizola passa com folga para a posteridade como um político coerente, que defendeu seus ideais até a morte.

Mais uma vez dou-lhe razão em parte. Coerência é uma palavra que deve ser aplicada com ressalva para caracterizar a conduta política de Brizola. Seria melhor dizer que ele a manteve na defesa geral dos seus princípios, mas a ignorou no varejo da vida cotidiana, na mecânica do fazer político. Ninguém discute que o cacique do PDT era um nacionalista convicto e um defensor intransigente da legalidade democrática. Valores que ele defendeu com bravura no início dos anos 60, ao abortar um golpe militar contra a ascensão de Jango.

Diferentemente de Sarney, que se beneficiou dos militares e construiu sua carreira política à custa do servilismo, Brizola sofreu na pele o peso da farda, passou boa parte da ditadura no exílio e era odiado pela caserna. Ao voltar à cena nacional, após a anistia, retomou com vigor a defesa dos valores democráticos; foi figura de vanguarda no movimento pelas eleições diretas para Presidente. Em 1989, no ápice da popularidade, disputou a Presidência com chances de ganhar. Foi ferrenho opositor de Collor, a quem se referia como "filhote da ditadura".

Apesar disso, como que acometido de amnésia ideológica, lá na frente juntaria-se ao "caçador de marajás" no episódio do impeachment, surdo ao eco das ruas; caminhando na contramão dos anseios populares. Formou dobradinha com Antônio Carlos Magalhães na defesa irracional do ex-presidente e a ele manteve-se leal até o expurgo do Planalto. Logo Fernando Collor que, deixando de lado os atos de improbidade, promoveu a abertura da economia para o capital estrangeiro - uma afronta direta aos ideais nacionalistas de Brizola.

Nos últimos tempos, tornou-se adversário de Lula, companheiro de lutas memoráveis; preferiu formar fileiras ao lado do PFL de Roseana, ACM e Bornhausen. Até o último dia de vida articulou contra o governo e tentou manter-se no centro da cena política. O velho caudilho não sabia dividir poder; defendia a democracia em sua forma genérica, mas a vetava no âmbito doméstico. No PDT, cultivava métodos absolutistas. Era um déspota na defesa dos seus domínios. É esse o político que entra para a história. Contraditório na forma de agir. Coerente na defesa dos seus ideais.

Frases

"Temos que fazer mudanças na política do salário mínimo".

Do presidente Luís Inácio Lula da Silva, deixando implícita a intenção do governo de desatrelar os benefícios da Previdência do salário mínimo

"Não podemos continuar com essa novela de ano a ano"

Do líder do governo na Câmara, deputado Professor Luisinho (PT-SP), ao defender uma política de recuperação para o salário mínimo a médio e longo prazo, sem a necessidade de reajustes uma vez por ano

Nonato Reis escreve neste espaço aos domingos



Escrito por Nonato Reis às 21h00
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Coração bobo

Meu coração é um moleque vadio

Sofre, apanha, ama, reclama

Deita na grama, escorre na cama

Finge morrer, mas segue no cio

 

Menino travesso de arco na mão

Compasso afiado na pele eriçada

Seta inclinada, ereta, talhada

Vôo rasante, profundo, explosão

 

Meu coração é passado, “demodê”

Chato, teimoso, rude, inquieto

Mas tem bom gosto, sabe o que quer:

VOCÊ... QUEM NÃO VÊ?



Escrito por Nonato Reis às 15h55
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