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Olhar dinâmico

Nonato Reis

nonatorreis@bol.com.br

A sangria da convocação

 

Todo final de legislatura é o mesmo teatro. Os parlamentares fazem corpo mole – aliás, eles são mestres na arte -; falta quórum nas sessões ordinárias; deixa-se de votar medidas provisórias; tranca-se a pauta de votação. Pronto, o palco está montado para mais uma sangria de recursos públicos, que atende pelo nome de convocação extraordinária do Congresso Nacional. Alguém sabe quantos projetos a Câmara e o Senado votaram nos últimos dez dias? Sabe sim: apenas dois, o do salário mínino e a PEC que reduzia o número de vereadores.

Enquanto isso, as gavetas do Congresso Nacional encontram-se empilhadas de matérias esperando a vez para entrarem na pauta de votação. Nessa lista há propostas com mais de 10 anos de tramitação, morfando sob o peso da burocracia e da irresponsabilidade. Há também iniciativas vitais para o desenvolvimento do país, como os projetos de Biossegurança, Parcerias Público-Privadas, Lei de Falências e a própria modernização do Poder Judiciário.

Agora, não mais que de repente, Congresso e Executivo, como que acometidos por um surto de aparente lucidez, entenderam que esses projetos são indispensáveis, a ponto de não poderem aguardar mais um mês sequer . Tudo combinado, como numa ação entre amigos. No final das contas, cada parlamentar embolsa, devidamente adiantado, um extra equivalente a dois salários, algo ao redor de R$ 30 mil reais, o erário perde cerca de R$ 15 milhões, nada é votado e “tudo fica como dantes no castelo de Abrantes”.

Efetivamente, tornar-se deputado ou senador, no cenário político atual, é um algo bom demais, um colosso - talvez o emprego dos sonhos. O sujeito trabalha em média três dias na semana. Segunda-feira ele ainda está retornando de suas bases; terça, quarta e quinta cumpre uma agenda nem sempre apertada; sexta-feira é hora de voltar para casa, não para a residência de Brasília, naturalmente, mas àquela que ficou em seu Estado natal. Passagem de avião? Não é problema. Ele tem direito a quatro bilhetes por mês, ida e volta.

Além do subsídio, recebe ajuda de custo, auxílios moradia e transporte. Tem também telefone e correio de graça e mais uma penca de cargos de assessoria. Privilégio demais? Isso não é tudo. Pelos relevantes serviços prestados à nação, o deputado ou senador tem direito a férias, no formato de recesso, de três meses! Isso mesmo, o parlamentar é o único trabalhador que comparece ao batente apenas nove meses por ano e garante a aposentadoria com o cumprimento de dois mandatos eletivos.

Deputados e senadores também batem recorde de remuneração. Somando-se os 13 salários regulamentares aos quatro, por conta de convocações em janeiro e julho, são ao todo 17 ao longo do ano. Um absurdo? Já foi pior. Há dois anos o  parlamentar podia dizer e fazer o que bem entendesse. Se praticasse um crime comum , teria a barreira da Câmara ou do Senado protegendo-o das garras da justiça, que só poderia colocar a mão nele se uma das duas casas autorizasse o processo. Era o tal instituto da imunidade parlamentar – imunidade ou impunidade?

Tudo isso ocorre aos olhos da opinião pública, estampado nas páginas de jornais e nas telas de TV, e poucos esperneiam. Os parlamentares só se lembram de ouvir a voz das ruas em ano eleitoral, já no início do segundo semestre, às vésperas da campanha. Como agora. A maioria já dava como certo o crédito extra em suas contas bancárias.

Mas o desgaste com a votação do salário mínimo, a queda livre no índice de aprovação do governo e a conveniência de agradar o eleitor fizeram Executivo e Legislativo recuarem. O presidente do Senado, José Sarney, concluiu ( sic) que retardando o recesso em uma ou duas semanas há condições de apreciar todas as matérias pendentes e tidas como urgentes. Curioso é que nas vezes anteriores ninguém tenha descoberto essa fórmula mágica.

 Frases

 “Num esforço concentrado do Congresso há condições para votar as matérias mais urgentes”

 Do presidente do Congresso Nacional, senador José Sarney, descartando a possibilidade de convocação extraordinária em julho

 "Um teatro para a campanha eleitoral do presidente americano"

Do ex-ditador iraquiano, Saddam Hussein, diante do tribunal pelo qual será julgado

Nonato Reis escreve neste espaço aos domingos



Escrito por Nonato Reis às 08h45
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A MAGIA DO SÃO JOÃO

No Maranhão, o bumba-meu-boi é muito mais que a mistura de ritmos e cores, que a beleza de versos e bailados, e a plasticidade de fantasias e adereços. É sobretudo viajar pelos caminhos da alma, seguir vôos imaginários no horizonte dos sonhos, fundir-se com a própria natureza etérea do universo.

(Para celebrar este momento apoteótico da cultura popular do Maranhão, reproduzo trechos, em forma de resenha, de uma reportagem escrita por mim para uma revista de circulação nacional)

o0o Junho, no Maranhão, é a época em que céu e terra deixam de ser apenas signos opostos e se entrelaçam como partes de um todo mágico. Os santos abandonam os espaços sagrados das igrejas e passam a habitar o olimpo da cultura popular, seduzidos pelo encanto de matracas, zabumbas, metais e pandeirões. É o reinado místico do bumba-meu-boi, a brincadeira de origem européia que, enriquecida por africanos e indígenas, esquentou as noites do Brasil colonial, evoluiu no tempo e hoje firma-se como elemento de ponta do folclore maranhense.

o0o Não há santo, e muito menos mortal que resista ao ritmo forte da percussão, ao som melodioso de trombones, pistões e clarinetas e à força poética das toadas (canções populares). O bumba-meu-boi reina absoluto nas noites juninas do Maranhão e atrai multidões para os arraiais, os palcos improvisados a céu aberto, para receber a brincadeira, que começa no dia 13, com Santo Antônio; ganha embalo com São João (24), atinge o apogeu com São Pedro (29) e faz o happy end com São Marçal (30), quando dezenas de grupos guarnecem ao longo da avenida João Pessoa, na capital, São Luís, formando um imenso corredor apoteótico.

o0o Com variações apenas sutis, o auto do boi é o traço comum entre os grupos. Tem como palco uma típica fazenda da zona rural. Grávida, Mãe Catirina sente vontade de comer língua de boi. Escolhe para o sacrifício o novilho de estimação do amo - o dono da fazenda e um dos personagens centrais do enredo –, e confia ao marido, Pai Francisco, a tarefa de concretizar o objeto do seu desejo. Gravemente ferido, o boi morre. Inconsolável, o amo manda chamar o Doutor (espécie de pajé) que, usando de poderes mágicos, ressuscita o novilho. É o início da festança.

o0o A exibição do bumba-meu-boi é um show inesquecível, onde pontificam os batalhões pesados ao ritmo das batidas fortes de matracas e pandeirões. Mas é possível apreciar todo os sotaques num único espetáculo. Nesse ambiente alegórico o dono do espaço é o Boizinho Barrica, vertente criada dentro de uma concepção menos ortodoxa. Com duas décadas de existência, a brincadeira já correu mundo. Esteve na França, na Alemanha, na Bélgica, na China. Foi até no Japão. É uma espécie de teatro de rua, por onde desfilam as principais manifestações folclóricas do Estado, num leque que abrange tambor de crioula, festa do divino, quadrilha , danças do coco e cacuriá, além, naturalmente, do bumba-meu-boi.

De belíssima melodia, a música do Boi Barrica, às vezes, transcende a própria forma, torna-se poesia em essência, derramando-se pelo espírito como luz celestial. "Por que será/que a lua vem do teu beijo/crescente desejo/minguante esperar/boca da noite na praia/duas estrelas na beira do mar/é o coração/que quando bate acelerado/é por que já chegou amor/não quer viver mais separado".

0o0 Por que tudo no bumba-meu-boi é superlativo? A revista Cadernos do Terceiro Mundo , que circula na África e países da América Latina, escreveu uma reportagem de duas páginas, sobre o Boi Pirilampo, tentando decifrar esse enigma e acabou descobrindo que a resposta abrange uma combinação de fatores. Um deles é a própria natureza do espetáculo. " (...) seduz pela alegria contagiante que emana dos bailantes, pelo brilho e bom gosto das fantasias, pelo impacto da profusão de cores e pela simbiose de ritmos", conta a revista.



Escrito por Nonato Reis às 10h41
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O primeiro gozo

Todo mundo traz consigo as marcas das paixões adolescentes. Elas podem estar guardadas no coração ou na mente. Mas vivem com a gente eternamente. Vejo-me numa sala de reboco, paredes toscas, chão de terra batida – escola esmirrada, quase sumida no coração da mata virgem. Era 1970. Eu sentado na primeira fila de carteiras. Ela em pé, na minha frente, rente à lousa. Mulher de estatura mediana, corpo sensual, gracioso. Voz pausada, suave, quase melodia. Sorriso fácil, farto, como que dotado de luz no instante fugaz e eterno em que aqueles olhos graúdos cobriam os meus e eu mergulhava nos seus.

Havia nascido de sagitário. Espirituoso, romântico, impetuoso..., inclinado a grandes paixões. Um dia, cansei de ter medo. Dele não me livrei, mas o coloquei no bolso da calça, guardado como segredo. Se aquilo era amor, tinha que ser declarado, vivido, compartilhado. Com lápis e papel rompera o degredo. Foi dela assim os primeiros versos, o primeiro parto, a poesia mais genuína:

"Amor é o que sinto aqui

Tudo que me prende a ti

Desejo, sonho, paraíso

Medo de sair de mim

Vontade de ficar contigo"

A aula terminara. Na sala ficamos os três: ela, eu e aquele papel que me queimava as mãos. Como quem se livra de uma bola de fogo, passei-lhe a senha e esperei com os olhos espetados no chão. Quanto tempo esperei não sei dizer. Talvez a eternidade dos que amam. Mas ao final dela nossos olhos se tocaram... de frente! Vi neles um certo ar de espanto, um meio sorriso de encanto, uma leve expressão de querer. Me vesti de coragem, despi-me de medo... em ondas de amor naveguei. E amei...meio sem jeito, desentrosado, travado. Como um pinto dentro do ovo. Mas foi dela também o meu primeiro gozo.



Escrito por Nonato Reis às 12h25
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