www.nonatoreis.zip.net


Olhar dinâmico

Nonato Reis

nonatorreis@bol.com.br

 reproduzido em www.nonatoreis.zip.net

 

O drama da leitura

 

 Há perguntas que não calam. Atravessam o tempo. Envelhecem e caducam. Chegam a tocar a eternidade. Mas continuam atuais. O método pedagógico adotado nas escolas públicas deve ser mudado? O professor conhece a extensão do seu papel em sala de aula e fora dela? Do conhecimento repassado ( ?!) qual o percentual apreendido? E, afinal, o aluno de fato absorve o contexto dos livros ou apenas representa o personagem de uma peça anacrônica, onde todos fingem que fazem alguma coisa?

Vinte anos atrás, jornalista recém-formado e sem um norte traçado, decidi fazer uma incursão pelo magistério, aproveitando o convite de uma escola de classe média. Meus alunos tinham entre 11 e 14 alunos. Cursavam da sexta à oitava séries. Logo na aula inaugural, o primeiro susto. Ao fazer um teste de interpretação, descobri o tamanho da encrenca que me aguardava. Cerca de 95% da turma não sabia ler. Pelo menos dentro do padrão de uma boa leitura, em que se observam o emprego correto de sinais, a entonação, o fluxo verbal e o ritmo regular do texto. Corri às outras salas e o mesmo fantasma. Em algumas, o índice de reprovação chegava a 100 por cento.

Entrei em parafuso. Deveria dar uma desculpa qualquer e fazer o caminho de volta? Aceitar os fatos como imutáveis e “deixar correr”? Ou topar o desafio e tentar mudar o curso do destino? Nunca fui de recuar diante de obstáculos. Sempre acreditei na capacidade realizadora do homem e muito mais na minha. Fui à luta. Na verdade, havia identificado a matriz de muitos males que acometem a educação no Brasil. Dificuldade de leitura constitui um círculo vicioso. O aluno não sabe ler porque quem deveria ensiná-lo também não sabe. Não sabendo ler, está-se condenado. Prejudica-se a capacidade de interpretação, dispersa-se o conhecimento, queima-se energias de noites insones diante de textos que, a cada leitura, parecem-nos mais estranhos.

Isso explica, em certa medida, o desapego do brasileiro por livros, jornais e revistas. Explica melhor ainda opesadelo da redação nos concursos vestibulares e a ojeriza que os alunos nutrem por esse tipo de atividade no ensino fundamental e médio. Vá a uma sala de aula e experimente anunciar uma dissertação como dever. O barulho, de tão uníssono, lembra o coro das torcidas nos estádios, quando a bola passa beijando o trave e se perde.

Mas disse que topei descascar o abacaxi. Para mim estava claro que o maior obstáculo era tocar o interesse dos alunos pela leitura, fazer com que eles tomassem gosto pela matéria, assumissem para si a tarefa de atravessar o rio. Originário do Projeto Rondon, coloquei o problema como algo nosso e não apenas meu ou deles. Assim, evitava a dispersão, envolvia a todos. No final de intensa discussão, eis a fórmula mágica: criar um clube de leitura, orientado por mim, conduzido por eles.

Toda sexta-feira invertiam-se os papéis: eu sentava na carteira, a direção do clube postava-se na frente da mesa. Seguiam-se 80 minutos de aula. O texto rodando de mão em mão e a análise minuciosa de cada performance. O resultado foi tão surpreendente que, no final do ano, os números haviam mudado de lado na mesma proporção. Cerca de 90% dos alunos eram avaliados como ótimo e excelente em leitura. Mais ainda: derrubara-se também o mito da redação: as turmas faziam festa quando lançava-se um tema para ser dissertado. E, ato contínuo, parcela significativa interpretava corretamente textos de autores consagrados, como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Graciliano Ramos. Português passou a ser a disciplina preferencial da maioria e a rubrica detentora das melhores notas nas cadernetas. Até porque aboliu-se a prova formal como único critério de avaliação e passou-se a levar em conta o desempenho geral do aluno, em que se atribuía uma série de itens.

O leitor deve estar se perguntando se isso não se configura uma revolução. Em certa medida, sim. Visto de outro ângulo, não. Essa experiência oferece algumas leituras. Uma delas é a importância do professor como indutor de soluções. Por comodismo e às vezes por incompetência, costuma-se transferir responsabilidades que poderíamos perfeitamente abarcar. O professor é a ponta-de-lança do sistema. Atua no espaço onde quase tudo que se planeja vai desaguar. Nunca tive formação de magistério, mas possuía a visão do processo. Se, ao invés de cruzar os braços e entregar-se ao desânimo, procurássemos desatar os 'nós' da sala de aula, certamente algumas dessas perguntas que ainda nos martelam a mente já seriam dor de cabeça vencida.

Nonato Reis escreve neste espaço aos domingos



Escrito por Nonato Reis às 13h42
[   ] [ envie esta mensagem ]




Olhar dinâmico

Nonato Reis

nonatorreis@bol.com.br

 

Aula de cidadania

 

De todas as lembranças dos meus tempos de faculdade, a que guardo com mais carinho é a do Projeto Rondon. Foi lá que incorporei a visão de cidadania e ganhei consciência do papel das pessoas na construção da sociedade. Antes, não passava de um estudante alienado, fruto de um sistema de ensino perverso que, ao invés de estimular os jovens a pensar, engessava-lhes o senso crítico e a capacidade de enxergar o óbvio. Adolescente vindo do interior, nada sabia sobre movimentos sociais, luta de classe, democracia. A palavra greve só vim a conhecer no inicio dos anos 80, com a ascensão de Lula como líder sindical. Era mesmo um caso praticamente perdido.

Mas via na televisão as imagens de universitários descendo de aviões em terras distantes. Uma, em particular, foi decisiva para consolidar o meu desejo de integrar aquelas missões. Era a de uma garota que, ainda no aeroporto, cabelos soltos ao vento, mochila nas costas, mandava um recado para os colegas que haviam ficado na terra de origem. Em certo trecho da mensagem, lembrava em tom vitorioso: "Não disse a vocês que iria participar do Projeto Rondon?" E completava descrevendo a grandeza da experiência vivida.

Sem exagero, o Projeto Rondon foi talvez o melhor legado dos militares, que o conceberam como instrumento estratégico para evitar que a Amazônia fosse tomada de assalto pelos gringos. Já naquela época, em l967, havia o delírio da internacionalização da floresta equatorial. Os cérebros fardados imaginavam que mandando estudantes passear na selva estavam garantindo a soberania nacional. Sintomaticamente, o slogan do projeto era "Integrar para não Entregar".

Por sorte esse emblema acabou-se fortalecendo por vias transversas. Ao se deparar com a realidade indigente das periferias dos centros urbanos e de pequenas cidades de regiões desconhecidas, os acadêmicos despertaram para a necessidade de interagir com aquele meio e de encontrar alternativas de mudança. A incursão no âmago doente do país incutiu neles um desejo irrefreável de reformar a paisagem social. A linha filosófica não era mais a defesa da Amazônia, mas o fortalecimento político da sociedade, a descoberta de ferramentas que levassem as comunidades a construírem o seu próprio destino. Aquele lance de ensinar o faminto a pescar em vez de entregar-lhe o peixe.

Uma cena marcou minha vida. Foi na Paraíba, município de Mari. Chefiava uma equipe de 40 acadêmicos. Ao fazer visitas domiciliares, esclarecendo objetivos da missão, deparei-me com uma senhora de 70 anos que jazia sobre uma cama de estacas, acometida de tuberculose. No casebre de palha moravam apenas ela e um neto de 10 anos. Solicitei a intervenção da acadêmica de Medicina e determinei atenção especial do grupo. Tomando remédios e se alimentando de sopa duas vezes por dia, reagiu, ganhou forças, ficou de pé. Não conheço o final dessa história porque 20 dias depois tivemos que retornar a São Luís. Mas esse episódio comoveu a todos e dá a medida exata de como pessoas humildes vivem nos arredores dos centros urbanos.

O certo é que pela contribuição dada à formação profissional e pelas marcas indeléveis que inscreveu no tecido social do país, o Projeto Rondon jamais poderia ter sido deletado do mapa do ensino universitário. Até porque a universidade nunca cumpriu o seu papel de centro gerador de saber, pesquisa e extensão. A maioria limita-se a oferecer um ensino capenga, de qualidade duvidosa. O Projeto Rondon supria a lacuna da extensão. Muitos o classificavam como uma espécie de universidade na prática. Por meio dele, os acadêmicos aplicavam o que aprendiam em sala de aula, conheciam o modo de viver das periferias, tentavam mudar o rosto e alma do país.

Fico feliz que Lula tenha decidido resgatar essa experiência, com a qual deseja "dar um choque de realidade" nos estudantes. Na minha época, conhecer os cenários mais adversos não me surpreendeu, já que provinha de um meio igualmente carente. O que o Rondon me propiciou foi uma leitura diferente dessas realidades e a certeza de que só se muda o destino de uma região compreendendo seus problemas, ouvindo sua gente, tentando despertar nas pessoas o seu poder de transformação. Ninguém de fora opera milagres numa comunidade, sem com ela juntar forças e levar em conta a sua capacidade realizadora. O Projeto Rondon teve a virtude de descobrir essa verdade singela e procurar exercê-la com sabedoria. Que volte agora maior e melhor.



Escrito por Nonato Reis às 21h55
[   ] [ envie esta mensagem ]




ESTIAGEM

 

O rio da minha ilusão

Corre lento sem direção

Viajante de luas desertas

Trilha desfeita, incerta

Caminho aberto pr,o nada

 

Maré vazante de amor

Leito crescente de dor

Represa de sonhos perdidos

Traço marcado, maldito

Sinal fechado p,ra vida

 

O rio da minha ilusão

Avança em contramão

Por entre pedras e correntes

Desce morno, sonolento...

Quase morto!



Escrito por Nonato Reis às 20h05
[   ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]


 
Meu perfil
BRASIL, Nordeste, SAO LUIS, AURORA, Homem, Portuguese, Spanish, Arte e cultura, Livros, barzinho, vinho, praia, lua, estrelas
MSN -
Histórico
  13/05/2007 a 19/05/2007
  25/03/2007 a 31/03/2007
  07/05/2006 a 13/05/2006
  16/04/2006 a 22/04/2006
  09/04/2006 a 15/04/2006
  02/04/2006 a 08/04/2006
  12/03/2006 a 18/03/2006
  02/10/2005 a 08/10/2005
  25/09/2005 a 01/10/2005
  18/09/2005 a 24/09/2005
  20/02/2005 a 26/02/2005
  06/02/2005 a 12/02/2005
  30/01/2005 a 05/02/2005
  16/01/2005 a 22/01/2005
  02/01/2005 a 08/01/2005
  12/12/2004 a 18/12/2004
  05/12/2004 a 11/12/2004
  28/11/2004 a 04/12/2004
  14/11/2004 a 20/11/2004
  17/10/2004 a 23/10/2004
  03/10/2004 a 09/10/2004
  26/09/2004 a 02/10/2004
  19/09/2004 a 25/09/2004
  12/09/2004 a 18/09/2004
  05/09/2004 a 11/09/2004
  29/08/2004 a 04/09/2004
  01/08/2004 a 07/08/2004
  25/07/2004 a 31/07/2004
  18/07/2004 a 24/07/2004
  11/07/2004 a 17/07/2004
  04/07/2004 a 10/07/2004
  27/06/2004 a 03/07/2004
  20/06/2004 a 26/06/2004
  13/06/2004 a 19/06/2004
  06/06/2004 a 12/06/2004
  30/05/2004 a 05/06/2004
  23/05/2004 a 29/05/2004
  16/05/2004 a 22/05/2004
  09/05/2004 a 15/05/2004


Votação
  Dê uma nota para meu blog