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CARTA MALDITA!

 Luz, cores...aquarela!

A estrela irrompe na tela

Leve, brejeira, graciosamente bela

Os olhos se agitam, o pulso acelera

Coração não se engana: é ela!

 

Como bom jogador, meço a distância

Estudo os meus passos. Miro o compasso

Ela recua. Sabe que profano o sagrado

E lanço-me ao ataque... alucinado

Chego a tocar suas entranhas

 

A flecha, porém, regateia no ar

Desce em parábola, some no mar

Sou agora cometa errante

Viajante de luas minguantes

Planeta perdido, apavorante

 

Mas eis que ressurge... brilhante, faceira

Iluminando-me face inteira

Devassando-me a pele,

Órgãos, músculos e veias...

Acolhendo-me em teias

 

Como carta maldita, me caça

Persegue, cerca e me acha

Sedento de amor

Eu me entrego

Recluso de dor!



Escrito por Nonato Reis às 09h08
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De Anas, Julianas e Roseanas

 Fale-se mal de Fernando Henrique Cardoso. Soltem-se cobras e lagartos sobre os oitos anos do governo tucano. Foi uma droga mesmo. Graças a ele o Brasil aprofundou a sua carga de impostos, paralisou o setor produtivo, engessou a balança comercial, viu definhar a poupança interna e, supra-sumo de todos os pecados, mergulhou na pior crise de postos de trabalho de que se tem notícia. No entanto...em que pese todos os equívocos que se possa elencar, há um contraponto redentor. Na verdade um apêndice subjacente. Graças aos +fritadores de bolinhos+ (1), o Brasil livrou-se de uma bomba-relógio chamada Roseana Sarney.

Faltou pouco. Muito pouco para o pavio detonar. Foi Serra, com seus arapongas, que desativaram a engenhoca. Naturalmente não o fizeram movidos por um sentimento patriótico. Em política, visa-se em primeiro lugar o próprio umbigo; e só depois, muito além, o tal interesse público, como preconizava Maquiavel em O Príncipe, cerca de 500 anos atras, viu dona Loba e senhora Diana? Mas de que mesmo estamos falando? Ah, sim, do tal explosivo. O certo é que, por vias transversas, atirou-se no coelho e feriu-se a gazela.

Ao trazer à luz do conhecimento a malfadada Operação Lunus, a turma tucana fechou o sinal de Roseana, quando ela avançava perigosamente sobre a avenida Brasil e já havia deixado a ferrari de Lula para atrás, formando um redemoinho assombroso. A ex-governadora do Maranhão usava um marketing impecável, apresentava-se como uma espécie de salvadora da Pátria, exibia números fabulosos sobre o governo que acabava de deixar. Nas entrevistas +programadas+ do PFL, falava com segurança, dissecava os problemas nacionais com uma visão privilegiada, tratava de segurança como os coronéis da velha guarda. “Acabei com o crime organizado no meu Estado, mandei prender delegado, pus empresário na cadeia, cassei deputado”. Junte-se a isso a condição de mulher.

 Francamente. O Brasil devia beijar a mão do Serra, mesmo com todos os demônios que cercam o ex-ministro. E por que escrevo assim? Fui um observador orgânico dos dois primeiros anos da gestão de Roseana à frente do Governo do Estado. Como jornalista, convivi com a intimidade do poder em seu dia-a-dia, naquela faixa especial em que são gestadas as políticas públicas, despidas de toda a maquiagem. Foram dois anos de observação, até que perdi a paciência, pedi exoneração e fui cuidar da vida. Sem mágoas ou traumas. Apenas entendi o óbvio: não passava de instrumento de afirmação de um governo pequeno na própria concepção.

Roseana é desses políticos que encantam não pelo que fazem, mas pelo que projetam. Seu governo foi um belo produto de mídia. Costumava-se dizer que havia dois governos, o virtual e o real. Naquele que chegava aos lares via telinha e páginas de jornais, a governadora era o símbolo da mulher corajosa, empreendedora, ícone de um novo tempo. Na fotografia em preto e branco, o que emergia era um Estado cada vez mais pobre, com mais da metade de sua população vivendo na linha de miséria, alto índice de analfabetismo, evasão escolar acima de 30%, desemprego em larga escala, falta de horizontes, endividamento crescente. Diante de jornalistas mais tenazes, Roseana tremia, gaguejava, perdia o rumo. O discurso previamente digitado era o seu companheiro inseparável.

O leitor deve estar-se perguntando por que só agora, passados dois anos da campanha presidencial, estou exumando cadáveres. Naquela época, o Brasil afastou Roseana do seu horizonte e acertou as contas com o seu destino. Agora, dois anos depois, inicia-se uma operação, no Estado, com vistas a alijá-la do processo sucessório de 2006. Tal como em 2002, o esquema atual está sendo deflagrado com objetivos subalternos, não mais que produto de vaidades contrariadas. Tomou forma, porém. Reflete-se já na campanha para prefeito de São Luís e pode cristalizar-se daqui a dois anos como algo avassalador, inexorável. E já não é sem-tempo. Tá mais do que na hora de arremessar as Anas, Julianas e Roseanas ao limbo do desprezo.

 l) Denominavam-se ‘fritadores de bolinhos’ os militares de alta patente que a partir de 1945 e durante o regime ditatorial, ocupavam-se em conspirar e a urdir golpes nas casernas e gabinetes palacianos. Dessa turma o mais famoso de todos foi o general Golbery do Couto de Silva.



Escrito por Nonato Reis às 09h54
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Memórias da sala de aula

A crônica O drama da leitura alcançou uma repercussão que eu jamais imaginei. Foram ao todo 34 comentários, até este momento. Um recorde para alguém que ainda está engatinhando neste mundo dos blogs. O meu espaço sempre foram as redações de jornal e, mais recentemente, de assessorias de imprensa. Ao escrever esse artigo, tinha consciência da sua importância. Até pedi a uma pessoa de minha estima que abrisse a caixa de comentários. Queria ter uma idéia de como o tema chegaria aos demais leitores. O certo é que estabeleceu-se uma discussão belíssima, puxada pela Loba e pela Diana.

Face a essa reação tão positiva, achei por bem desdobrar essa experiência. Minha idéia agora é mostrar com mais detalhes como isso se processou. Na verdade o clube de leitura foi apenas um emblema. Com ele outras idéias igualmente produtivas foram nascendo e se consolidando. Quando percebi que os alunos haviam se doado de corpo e alma para o clube, lancei outra semente: a de um grupo de redação. A resistência foi imediata. "Ah, não, redação nem pensar, professor". E eu: "ah, sim, redação sim senhores".

Mostrei a eles que o ato de escrever podia ser algo prazeroso, se eles encarassem o desafio com a mesma obstinação a que se entregaram ao clube de leitura. Expliquei que a resistência em escrever provinha exatamente da falta de conhecimento. "Se você nunca leu nada sobre determinado assunto, não tem informação nenhuma a respeito, como poderá escrever?", era o meu argumento central. E arrematava: "não pretendo impor nada aqui. Se vocês não quiserem fazer redação, arquivamos a proposta. Agora, saibam que desafios a gente encara, porque se não eles nos acabam engolindo depois".

Assim, das quatro sextas-feiras do mês, duas eram dedicadas à leitura, as outras duas a redação. Uma sexta-feira antes a gente escolhia o tema. Tudo de comum acordo. Usina nuclear, por exemplo. Todos tinham que pesquisar sobre isso. Jornais, revistas, livros, folhetos. E ficar atentos ao noticiário de rádio e televisão. No dia da redação, o primeiro horário era destinado a um intenso debate. A turma pegava fogo. O núcleo dirigente encarrega-se de manter a ordem. Eu apenas assistia de alguma carteira e intervinha quando necessário. No segundo horário, era hora de traduzir tudo aquilo para o papel.

Em pouco tempo, redação passou a ser a aula mais proveitosa. Desnecessário dizer como aquilo me queimava o sangue. Ver a dinâmica do processo acontecendo, e tantos mitos caindo pelo ralo. Mas eu ainda não me dava por satisfeito. Era hora de lançar a terceira semente e transformar o clube de leitura em apenas um grupo de estudo, assim como o de redação. A idéia: criar um Clube da Amizade, e dentro dele três núcleos agrupados: o de leitura, o de redação e o de interpretação. Neste último, lia-se obras de autores como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Jorge Amado, etc. E também os livros de uma série chamada "Para Gostar de Ler".

Mas havia um obstáculo. Não poderia onerar os alunos com a compra desses livros. A solução veio fácil. Os alunos se cotizavam e faziam xerox por capítulo. Depois o pai de um deles, dono dessas máquinas, ofereceu-se para xerocar os livros, gratuitamente. Assim, passamos em revista um sem-número de títulos. Analisamos até o Dom Casmurro de Machado de Assis. E não consigo conter o riso ao me lembrar do debate acirrado em torno da suposta traição de Capitu. Nessa hora o machismo aflorou. Os meninos, de um lado, solidários a Bentinho. As meninas, de outro, na defesa de Capitu. E de debate em debate vencemos também o drama da interpretação.

Como falei na resposta a um comentário da Loba, a maior dificuldade que enfrentei foi depois ter que segurar o ímpeto dos alunos de seguir os meus passos. Grande parte queria ser jornalista. Eu os alertei para que se livrassem da sombra do professor e procurassem descobrir suas próprias virtudes. Uma garota de 12 anos, de nome Conceição, passava a aula inteira olhando para mim. Um dia aproximou-se e prometeu-me que ainda trabalharia comigo lado a lado numa redação de jornal. Não levei a sério. Anos depois, correspondente da Folha de S. Paulo, passava uma matéria por telex para a matriz, quando alguém tocou-me nas costas e soltou a revelação: "Não lhe disse que seria jornalista?". Era a Conceição, mulher feita e bela.



Escrito por Nonato Reis às 17h46
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