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Histórias de vida
Geralmente, surgem de repente. Pegam você no contrapé. Quando nos damos conta, já demarcaram o espaço, fincaram os limites. Às vezes só conseguimos mensurar a sua dimensão quando já estão inscritos no tempo, colados na memória. De que falo? Daqueles eventos que marcam a pessoa. Grudam na planície da vida, forjando o relevo que tempera e dá sentido à existência.
O maior trauma
Tinha oito anos. O pai era o espelho, o caminho, o suporte. Um dia caiu de cama. Doença incurável para os padrões da época. Dois dias depois, estava desenganado. Era questão de horas. Pensei que morreria com ele. Não morreu. Perdeu um braço, ficou capenga. Cresceu na dor. Criou todos os filhos com dignidade. Ano passado comemorou bodas de casamento. Eu, emocionado, lembrei a história. E fechei com Fernando Pessoa: “Para ser grande, sê inteiro (...)”.
O amor sonhado
Sempre sonhei com um amor em câmara lenta, poético, redondo. Desse que chega sem fazer alarde, toma-nos aos pouquinhos... até fazer-se. Encontrei-o sentado num banco de faculdade. Corpo esbelto, cabelos loiros, olhos de um verde profundo. Desejei aquela mulher. Soltei o primeiro bilhete, discreto...despretensioso. Seis meses depois, havíamos estabelecido um fluxo intenso de papéis, mas tudo muito impessoal, quase neutro. Um dia, arrisquei. “Batom realça e seduz, no teu rosto falta luz!”. Ela corou, fizilou-me com os olhos. Depois correu ao banheiro. Quando voltou trazia os lábios revestidos num vermelho escarlate. Era a senha por que ansiava.
O melhor amigo
1985, julho. Estou na sala do editor-chefe do Jornal de Hoje, à época uma máquina de vendagem. Apresento-me como repórter, estou à procura de emprego. “Você tem experiência?”, quis saber. “Mínima”, respondi. Apontou-me uma velha máquina de escrever e ordenou: “pegue papel e faça um artigo”. No dia seguinte apresentava-me ao chefe de reportagem, um sujeito de bigode espesso, cabelos aos ombros, jeitão de galã de novela. Era o Regis Marques. Iniciava-se ali uma amizade que desafia o tempo.
Um sonho realizado
Ter um filho era o meu projeto mais transparente. Chegou por vias transversas. Dois anos depois de celebrar uma relação na qual jamais me reconheci. O ato que a gerou não foi necessariamente de amor, mas os laços que nos unem são, essencialmente, divinos. Chama-se Fernanda de Angelis, iluminada de espírito; ungida de graça.
A melhor reportagem
Trabalhava em O Estado do Maranhão. Um dia o editor me chamou em sua sala e atirou-me a senha. “Toma, é a reportagem do ano”. Analisei os documentos. Era de fato um explosivo. Uma garota de vinte e poucos anos, gaúcha, havia sido `presenteada` com um laudo falso de AIDS pelo laboratório de sangue do Governo do Maranhão. Decidira processar o Estado, de quem cobrava indenização de 100 milhões (acho que de cruzeiros, moeda de 93). Estampado no jornal, o fato tornou-se furo de reportagem, ganhou as páginas dos principais jornais e revistas do país e o espaço das melhores redes de televisão.
São historinhas assim, carregadas de simbolismo, que atestam a validade do +estar aqui+. Alguém já disse que, depois de uma certa idade, cada pessoa é responsável pelo seu rosto. Ainda não me sinto dono do meu, mas aqui e ali percebo traços de mim estampados em outras faces. Isso vale uma vida.
Escrito por Nonato Reis às 11h40
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EU MEIO, VOCÊ FIM
Você só pensa em orgasmo
Sonha com orgasmo
Alimenta-se de orgasmo
Dorme e acorda tendo orgasmo
Eu fico pasmo!
Somos metáforas díspares
Aves opostas, dispostas nos ares
Soma de antíteses, contraste de olhares
Você sempre focando o fim
Eu serpenteando por ti e por mim
Você prefere a vitória
Eu aprecio o jogo
Usa linguagem direta
Eu sigo por atalhos, retalho
Abomino a reta
Você só pensa alcançar a margem
Eu me deito na travessia...
E acordo! Natureza vazia
Você não quer me ver bem
Pra mim chega, desço do trem!
Escrito por Nonato Reis às 10h03
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Olhar dinâmico
Nonato Reis
nonatorreis@bol.com.br
Professor, profissão marginal
1980, Brasília. Sou um deputado faz-de-conta (1). Não tenho diploma legal nem fui eleito pelo voto direto. Mas desfruto todas as prerrogativas parlamentares. Uso crachá de deputado, participo de debates nas comissões temáticas, faço projetos de lei, discuto, examino, aprovo ou rejeito. Tenho mimos também: almoço no restaurante da Câmara, uso telefone e correio de graça, tenho passagem aérea gratuita e no final do mês minha conta terá um crédito equivalente a R$ 3.500 reais. É neste ambiente alegórico que descubro algo intrigante: professores do primeiro grau recebem salários que variam de meio salário mínimo à vigésima parte desse valor. Chego a sentir as pegadas do monstro.
1982, Nordeste. Vejo-me chefe de equipe de uma operação gigantesca do MEC (2). A missão: dissecar o ambiente de trabalho do professor da zona rural. As escolas funcionam em casebres de palha, ou de barro, ou de taipa. Na maioria delas, não há carteiras, nem bancos, nem lousa. Os alunos obrigam-se a sentar no chão. O trabalho é interrompido pela metade porque as cheias desse ano são avassaladoras. Cortam os caminhos de acesso, isolam as comunidades, interrompem o ano letivo. Mas a imagem salta dos formulários, agride a retina: a sala de aula do campo é um escândalo. Quase posso ver a cara do monstro.
Vinte anos depois é de se perguntar: o que essas situações tão distantes têm a ver com a realidade de hoje, e o que se pretende com elas? Respondo com uma evasiva: tudo e nada. Durante muito tempo – e em certo grau nos dias atuais – tentou-se explicar as deformações do ensino pelos baixos salários e condições de trabalho indigentes. Ao fazer isso, comete-se um erro crasso. Confunde-se o efeito com a causa. Neste início de século XXI, pode-se dizer que essas imagens de duas décadas atrás constituem página virada. O menor salário do professor passou de 5,00, 10,00 para 300 reais e as escolas em sua maioria funcionam em prédios de alvenaria, com ambiente arejado, luz elétrica, carteiras padronizadas, banheiros, cantinas. Mesmo assim, o monstro permanece aterrorizando.
Então, onde está a matriz? No primeiro ano de mandato, FHC soltou uma pérola: “se você não sabe fazer nada, vá ser professor”. A declaração caiu sobre a opinião pública feito fogo em canavial. Todos se apressaram em condenar o presidente. Foi uma pena. Não conseguiram entender o alcance da sua frase. Sem tirar nem pôr, ele disse que o sistema de ensino no Brasil é uma escola de opostos. Que aqueles que têm a tarefa de educar são exatamente os que deveriam estar sentados do outro lado da mesa. Eis a cara do monstro, a que se referiu Loba num de seus comentários.
O modelo pedagógico brasileiro é uma fábrica de deformações. O professor que não sabe ensinar ( ?) é o aluno de ontem que estava sentado no chão, naquelas escolas miseráveis. É o sujeito que, não tendo encontrado um espaço no mercado de trabalho, tomou o atalho do magistério, aproveitando a oferta generosa de vagas. Daí o círculo vicioso que sustenta a educação. Quando passei pela sala de aula, muitos ‘colegas’ me diziam que ensinar era ótimo porque além de garantir um salário, ganhava-se namorada fácil. Perdi a conta de quantas vezes vi professores aos beijos e abraços com alunas de 12, 13 anos. Podiam estar em qualquer lugar, menos dentro de uma escola.
No Brasil, tornar-se professor é uma canja. Basta fazer um curso de licenciatura, pegar o canudo e apresentar-se a uma escola – no caso da rede privada – ou submeter-se a um concurso simplista, com prova de múltipla escolha. Bem diferente de outras profissões. Para ingressar na magistratura, o advogado ou bacharel em Direito obriga-se a uma bateria exaustiva de provas. Tem que enfrentar até uma entrevista oral, em que se afere não só o conhecimento como também a agilidade do raciocínio. No caso de professor, não se exige o elementar: o teste da sala de aula.
A Diana me pergunta o que o 'professor' precisa fazer para tornar-se professor. É uma resposta difícil. Primeiro, o governo deve revolucionar o modelo. Não criando novas leis ( nosso diploma legal – a LDB – é muito bom), mas adotando uma filosofia de ensino que possa orientar toda a ação pedagógica. Se fizer isso, o resto vem a reboque. De nada adianta tentar-se corrigir as anomalias da educação atacando seus efeitos. Porque assim a gente vai ficar eternamente confundindo jacaré com dinossauro e, ato contínuo, comprando gato por lebre.
( 1 ) No final dos anos 70 e início dos 80, a Câmara dos Deputados oferecia estágio de deputado para universitários de todo país. Cada Estado mandava em média três representantes. A seleção era feita pelo histórico escolar.
( 2 ) Operação organizada pelo MEC em parceria com o Projeto Rondon. Denominava-se “Escola Rural”.
Escrito por Nonato Reis às 09h18
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