(Esta poesia, que publiquei em junho, é uma das classificadas do festival de poemas da UFMA, e está concorrendo aos primeiros prêmios. Eis por que a estou reeditando, acrescido do fato de ter sido postada numa época em que era muito pouco lido)
Amor que dói
Saudade é fogo ardendo no peito Flecha encravada, pungente, dorida Paisagem desfeita, sujeita sem vida Ambiente promíscuo, incerto, doente Ferida aberta, sangrando no leito
Saudade é soma de opostos Vida e morte casadas, no laço Lágrima vaga na pele sem rosto Sorriso amarelo, incerto, sem graça E o grito surdo da alma em desgraça
Saudade é querer acuado Crescente, desesperado Todo incompleto de mim Parte repleta de ti Conflito aflito, sem fim
Saudade sou eu aqui, você aí Lua partida, dividida em nós Coração opresso, minado por ti Olhos perdidos, horizonte a sós Desejo contido, amor que dói
Escrito por Nonato Reis às 11h34
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Olhar dinâmico
Cenas que chocam
Nonato Reis
nonnatoreis@hotmail.com
(Esta crônica marcou o meu afastamento dos blogs, razão por que teve sua análise prejudicada. Por julgar o tema importante, decidi postá-la novamente, neste meu retorno, na expecatativa de que agora possa merecer um olhar mais atento.)
As imagens desfilam pela tela esmaecidas, às vezes fora de foco, como se provindas de um filme em formato super-8, aquelas películas que durante décadas aplacaram a ânsia de cinegrafistas amadores por documentar pedaços de realidade. Enquadram cruzamentos de avenidas, chão de viadutos, lugares insalubres, paisagens agrestes, ambientes de trabalho. Nelas não há beleza impressa, nem alegria expressa. A arte trafega pelos porões do submundo. Despeja jatos de luz sobre pontos obscuros da vida. O sentimento é de opressão, tristeza, revolta, desilusão. A história projetada chega a lembrar um tempo longínquo, apagado da memória, tal o estado de decomposição do tecido social e a cápsula de indiferença que protege poder público e todos aqueles diretamente ligados ao enredo. Infelizmente, porém, as cenas são atualíssimas. Mostram um panorama assustador: corpos arrastando-se pelo tempo, expressões apagadas, olhos perdidos no nada, ar de desprezo, medo, desapego. Apagar a luz do rosto de uma criança tem o peso e a dimensão de uma hecatombe. É seguramente o maior crime intentado contra a humanidade. Equivale a fechar as janelas mais preciosas da vida, arrancar os olhos da civilização, desligar a lâmpada, sentar no meio do caminho, deixar o trem seguir desgovernado, sem curso, sem destino – inexorável. Certa vez, escrevendo uma reportagem sobre comunidades nativas, li o depoimento aterrador de um bugre (matador de índios), datado do século XVIII, talvez. Era mais ou menos assim: “Um dia atirei num curumim (criança indígena). Quando cheguei perto dele, ainda agonizava - lágrimas escorriam do seu rosto. Até parecia gente”. Não costumo iniciar matéria com citações. Acho que reduzem o impacto do texto. A força dessas frases, no entanto, obrigaram-me a rever a ótica. Dois séculos depois é de se perguntar: até que ponto crianças no Brasil são tratadas como gente? Quase dez milhões delas estão fora da escola, a maioria jamais freqüentou uma sala de aula. Muitas perambulam pelas ruas e avenidas das grandes cidades, sem vestes, sem teto, sem esperança – apenas comendo o pão amassado, jogado no tacho. Vivem de migalhas. Outras trocam a infância pela fase adulta. Estão em canaviais vivendo como bóias-frias; em fazendas agrícolas feito escravos; ou em carvoarias, onde envenenam os pulmões com lixo tóxico e mutilam o próprio corpo no contato inocente com o fogo. No artigo anterior, disse que no Brasil leis são feitas para não serem cumpridas. É uma verdade. O Estatuto da Criança e do Adolescente, o tal ECA, é o código de direitos e obrigações mais avançado do mundo. Trata a criança em toda as dimensões, garantindo-lhe o suporte indispensável da inclusão social. Àquelas que já transitam pela marginalidade, oferece todo o instrumental para um resgate tranqüilo e seguro. Mais do que isso: localiza deformações, indica caminhos, define responsabilidades. O progresso, porém, tangencia os limites do verbo. Não se estende para o ambiente doméstico nem para o quotidiano da rua. É como se houvesse duas realidades: a da ficção, retratada no texto frio da lei; e a de carne e osso, que opera nas ruas, nos orfanatos, nos casebres, no mangue, nos fornos de carvão e nos labirintos da febem. O Brasil precisa urgentemente implantar uma política para infância. Cortar os drenos da hipocrisia. Construir pontes para o futuro. Esse o desafio de governos e sociedade. Chega de tatear no escuro...de viver do monturo. Chega.
Escrito por Nonato Reis às 08h43
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