Pelo sorriso da flor
O carro desliza suave pelo asfalto macio. Do painel central, a voz aguda de Renato Russo toma o interior do veículo, impregna o cérebro do condutor, alcança a porção sensível da alma. “Sempre precisei de um pouco de atenção/ acho que não sei quem sou, só sei do que não gosto...”. Estou indo ao encontro do amigo dileto, que a essa altura deve estar postado ao alpendre da casa de veraneio, contemplando a placidez da baia de São José, que contorna a costa oeste de São Luís, formando um litoral singular.
Mas por que inicio divagando? Porque não fujo ao figurino de todo cronista. Tangencia-se sempre que não se tem assunto para escrever, ou quando nos vemos imersos numa variedade de temas. E aqui me enquadro. Mas a simples menção a O Teatro dos Vampiros, a música cujos versos iniciais uso na introdução, dissipa-me as dúvidas. Meu foco projeta-se sobre a última crônica editada aqui, a mesma que me viu baixar as cortinas e acenar um adeus que me parecia definitivo e que, dias após, revelou-se apenas breve.
A tônica dos comentários sobre Cenas que chocam foi o que fazer para mudar-se uma realidade cruel, em que o ser humano figura como sujeito. Respondi em breves linhas, mas acho que não atingi o núcleo. Ficou a impressão que o poder público constitui a força geratriz, a quem cabe o impulso inicial e o papel de refazer o curso da história. Será mesmo? Até que ponto estender o dedo na direção do governo não equivale a transferir responsabilidades e adiar ações que competem a cada um?
Será que o drama da criança e toda a sorte de injustiças perpetradas contra ela diz respeito apenas ao Estado? Será que a sociedade, aí incluídos os grupos organizados e os cidadãos em particular, faz a sua parte? Ou melhor, será que ela conhece a sua parte? E aí surge a pergunta inevitável. O que posso fazer para inverter o quadro da infância? Como agir quando se tem a sensação de impotência, quando as dificuldades ganham a dimensão de um oceano e nossas ações se reduzem ao tamanho de simples gotinhas?
Anos atrás, enquanto aguardava uma de minhas irmãs à porta de um consultório médico, li um cartaz afixado na parede, que dizia algo assim: “Se você deseja pedir perdão, tem algo a dizer ou a fazer por alguém, aproveite a primeira oportunidade que surgir, porque essa pode ser a última”. No dia seguinte, minha irmã foi internada em coma numa UTI de hospital. Sobreviveu quase por milagre. Se houvesse algum débito entre nós, estaríamos insolventes.
A melhor lição do Cristo pouca gente aplica. É aquela que manda amar ao próximo, praticar a caridade, ser solidário, incondicionalmente. O Brasil não é obra dos governos, mas especialmente dos brasileiros. Jamais resolveremos os problemas de segurança, honestidade na aplicação dos bens públicos e de zelo com a primeira idade, se a sociedade não somar forças com o Estado. Se não houver a catarse de consciências e corações, aquela simbiose de amor e razão. Comecei com Renato Russo. Fecho com Herbert Vianna: “Cuide bem do seu amor, seja quem for”. Não importa a dor, muito menos a cor. Vale o sorriso da flor.
Escrito por Nonato Reis às 11h34
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|