Direito de resposta
Hoje pego carona no trem da Loba. Não que a sua observação em apenso ao texto de ontem tenha-me centrado o olhar sobre o tema que pretendo dissecar. Há meses me debruço a observar a ótica do leitor a respeito do material editado nos blogs. Sabia que escreveria sobre isso a qualquer tempo, só não tinha a idéia precisa do momento. Assim a participação da Loba tem o sentido de um empurrão, o impulso derradeiro, mas não o de força motriz. Chegou a hora de encarar essa questão e o farei como sempre: de cara limpa, sem maquiagem, olho no olho. Afinal, devo estar mexendo num vespeiro. Que venham as reações, isso alimenta. Ponto nuclear. É justo deixar sem resposta a pessoa que comenta um texto? Quando abro uma página, seja de amigo ou de um desconhecido – e neste caso a primeira pessoa é genérica, não aponta necessariamente para este escriba – leio o que encontro escrito e atendo ao impulso de digitar um comentário, o faço apenas com o intuito de cumprir um protocolo ou por que gostaria de levar essa pessoa a refletir sobre determinado ângulo do texto? E neste caso, não é razoável supor que se estabeleça o feed-back, aquilo que se chama de alimentação de mensagem? Na minha concepção, deixar um comentário em silêncio eqüivale a dar as costas ao leitor, inscrevê-lo no limbo do esquecimento. Naturalmente que há casos singulares, em que a estrutura da pagina não permite o retorno. E cito aqui o exemplo da Mariza Lourenço, com quem tive oportunidade de discutir esse assunto por diversas vezes. Ela não tem como responder diretamente em seu blog, mas o faz com regularidade na página daqueles que a procuram e lhe distingue com a leitura. Alguém aqui tem dúvida de que o leitor anseia pelo retorno de suas opiniões? Se tem, é bom dar uma passada na página da Loba e ver o que eles responderam à indagação dela sobre esse assunto. Responder não é apenas uma questão de consideração com o leitor. Implica acender o pavio de um debate saudável. Novamente reporto-me à Loba. Corram lá, vejam a beleza de interatividade que uma simples pergunta ensejou em sua página. Eu mesmo bati recorde de registros e acho que o nosso ping-pong nos permitiu expor um ângulo mais aberto de nossas visões de vida. Democratizando o espaço, depara-se com uma questão crucial. Será que as pessoas estão preparadas para receber críticas? Quem edita seus escritos obriga-se a sentar na berlinda. O natural é que saiba enfrentar essa exposição, que pode render uma enxurrada de elogios, mas também um punhado de opiniões contrárias. E o que tenho observado é que, para a maioria, receber uma picadinha no rosto equivale a enfiar um punhal na alma. Dói, incomoda, abre-se uma ferida no ego que pode sangrar indefinidamente, o que é de lamentar. Uma crítica, se feita de forma bem intencionada, pode ter um efeito didático bem maior que o elogio, porque este serve apenas ao deleite do ego, sem falar no fato de que pode não ser verdadeiro. A crítica, mesmo infundada, estimula a reflexão, impõe a atenção do olhar, a vigilância do espírito. Mas como é difícil recebê-la. Muitos preferem cerrar a porta na cara do +agressor+ e bater em retirada, como o jovem Werther de Goethe ante à reação negativa de um amor impossível. Talvez por isso, a crítica seja tão rarefeita nos bolgs e os elogios borbotem em profusão. Eu, mesmo correndo o risco de granjear antipatias, não abdico do direito de dizer o que penso. Há um deputado, com assento na Assembléia Legislativa do Maranhão, conhecido pelo discurso irônico e o humor singular. Ele costuma dizer que perde o amigo mas não perde a piada. Eu sigo sua linha de pensamento. Posso até perder alguém querido como resultado de algum comentário desfavorável, mas não abro mão da crítica. Mesmo porque, se ele decide ir embora, podia ser tudo pra mim, menos amigo.
Escrito por Nonato Reis às 09h26
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Amor atado
E foi assim. Um homem era a própria encarnação do mal. Praticou toda sorte de crimes. Matou, roubou, seqüestrou. Morreu e foi bater no fundo de um poço gelado. Ali, na companhia de outros comparsas, hibernou anos a fio. Um dia, cansado da escuridão, caiu de joelhos e se rendeu. “Tirem-me daqui pelo amor de Deus. Não agüento mais!”. Eis que uma voz ecoa. “Pensa numa boa ação que tenha feito em vida”. Pensou, pensou... lembrou-se! Certa vez uma pequena aranha cruzou o seu caminho. Tentou esmagá-la com o pé, mas, por uma razão inexplicável, manteve-se estático, e o bichinho escapou ileso.
Nisso, surge uma teia de aranha diante dos seus olhos. Fininha, quase invisível. E viu que ela ligava o fundo do poço à superfície. Pegou-a com as duas mãos, esticou, viu que se mantinha firme. Era a sua tábua de salvação. Com calma, foi subindo, passo a passo, numa longa jornada. Quando o resgate já estava a pique de ser concluído e ele deliciava-se novamente com o canto dos pássaros e a brisa suave da manhã, quis olhar para trás. E viu que os demais comparsas também usavam o fio de seda para escaparem dali. Nessa hora o sangue queimou-lhe as veias e ele explodiu em ódio. “Larguem essa teia. Ela é minha!” Ato contínuo, a teiazinha partiu-se ao meio e todos voltaram para o fundo do poço.
Conto essa estória para colocar em evidência o pior de todos os sentimentos que acometem o homem. A frágil teia de aranha manteve dezenas de pessoas suspensas no ar, mas não conseguiu resistir ao peso de uma simples demonstração de ego ferido. O egoísmo é uma praga devastadora, talvez a pior de todas as mazelas, porque mantém o ser humano fechado em si mesmo, cego e surdo a tudo e todos. O foco da visão inflexiona-se. O entorno existe apenas como acessório. No egoísmo, inverte-se a escala de valores. Tudo passa a girar em torno da pessoa. Por si e para ela.
Difícil amar assim, não é? Imagina ser amado! Amor não é sinônimo de prisão, mas de liberdade. Dois signos gêmeos, binômio casado na mecânica e na essência. Quanto mais livre – não apenas dos sentimentos pequenos, como também de regras e normas de comportamento – maior a capacidade de se doar, de entregar-se ao outro, sem reservas. Simples de entender, quase +um triz+; difícil de gerir. Poucos, muito poucos entendem a equação. Porque, para a maioria, amar significa a satisfação de interesses pessoais, arraigados ao ego, e não o desprendimento deles. E cá ao pé do ouvido: quem de nós já não promoveu uma cena hilariante diante do menor sinal de desconforto interior?
O egoísmo é a nave-mãe dos sentimentos menores. Está na base da inveja, do ódio, da maledicência, da calúnia, injúria, difamação, ciúme. Há quem diga que não há como se livrar do ciúme, porque isso seria a negação de si próprio. Se gosto de alguém – formula-se – é natural que tenha medo de perder, que deseje preservar. Mas essa questão poderia ser equacionada de forma mais clara, sem maquiagem. Se gosto de alguém, vejo-o como meu. É natural que não queira perder algo que me pertence. O ciúme é por assim dizer a expressão da posse, que, por sua vez, reafirma a presença do eu.
E como isso é danoso para o ato de amar...Imaginemos a seguinte situação. Um casal está apaixonado. Ele liga para ela todas as noites, mesmo que apenas para dizer que está com saudade ou desejar um simples +durma bem+. Uma noite o telefone não toca. Desesperada, ela imagina mil e uma situações, todas o envolvendo com outra pessoa. A confiança vai para o espaço. Perde o controle, xinga-o, ameaça jogar tudo pro alto. Com algum diálogo, o clima suaviza-se e tudo parece retomar a placidez de antes. Alguma coisa muito preciosa, no entanto, se perdeu. A relação, que era espontânea, artificializou-se. Ele volta a ligar todas as noites. Mas ela jamais saberá se ele o faz por sentir vontade ou se apenas para evitar a recidiva.
Mas esse é apenas um ângulo da questão. O ego inflado contamina toda espécie de relação. Seja no trabalho, na escola, na sociedade, na rua, a dois ou em família. Está por trás das atitudes mais desprezíveis. Como a insensibilidade diante de um olhar aflito de criança; a indiferença ao pedido de ajuda de alguém que nos aborda no meio do trânsito; a inércia frente a cenários políticos desfavoráveis; ou o desdém por atos de solidariedade coletiva. O egoísmo é, por analogia de imagem, a erva daninha que corrompe o coração e subverte a razão. Importa vigiar o côncavo, cuidar do convexo. Eis porque talho versos.
Escrito por Nonato Reis às 11h22
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