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Este texto é a síntese de uma conversa mantida há poucos dias com uma amiga de São Paulo. Naturalmente foi excluída a participação dela por uma razão óbvia. Exceto correções de forma e a conclusão, tudo mais foi preservado, o que impõe à narrativa um ritmo descontínuo. De coração agradeço o carinho de todos nos momentos mais difíceis.

 

Lembranças e saudades

 

         Sempre lhe tive admiração. Não teve acesso à educação formal. Assinava o nome com dificuldade.  Lia muito pior. Mas com dedicação pessoal e solitária, foi aprendendo a soletrar as sílabas. Um dia o peguei lendo um romance, desses de bolso, acho que policial. Passou semanas a fio de olhos grudados no livro. E foi assim até a última página.  Sempre foi destemido. Nunca se deixou derrotar, jamais reclamou de qualquer coisa. Depois que perdeu o braço, vítima de gangrena, sofremos toda sorte de dificuldade. Todos os filhos pequenos, eu tinha 8 anos; a mais velha, 12; a mais nova 2 anos. Criou a todos com dignidade. Era o provedor da família. Mesmo depois que me formei e passei a ter salário, não me pedia ajuda. Eu que, vez ou outra, lhe tomava grana emprestada. Ele tinha apenas a aposentadoria do INSS, salário mínimo, mas sempre trazia algum dinheiro guardado.

        Gostava da minha mãe. Não deixava de lhe dar presente nas datas especiais - Dia das Mães, Aniversário, Natal. Queria que o filho fosse +doutor+... Isso numa época em que nem havia luz elétrica onde morávamos. Trabalhava na roça , era vaqueiro e pescador, mas jamais permitiu que o acompanhasse, a não ser em pescarias que, para mim, tinham um sentido muito maior de vadiagem. Seu sonho era me ver numa faculdade de medicina ou engenharia ou direito. Mas quando fui aprovado para comunicação, sua alegria foi imensa. Nunca resmungou da minha escolha nem me aconselhou a mudar de curso. Acostumou-se com a idéia do filho jornalista e até ficava envaidecido quando ouvia minha voz em emissoras de rádio, ao lado de nomes conhecidos dos anos 60 e 70, cujos programas a gente acompanhava em radinhos de pilha.

        Adorava rádio am. Acordava ligado na Jovem Pan. Aqui tem uma emissora que retransmite a programação. Seis da manhã, lá estava ele com seu radinho sintonizado no jornal. Era cabeça dura, formava opinião ouvindo noticiário e com base em comentários de colegas seus.  Jamais mudava de opinião por conta de minhas objeções e chegou a dizer certa vez que jornalista é mentiroso. Assim, empacou com Lula. Achava que Lula não tinha capacidade para governar o País. +Como é que pode, um trabalhador que só tem o primário ser Presidente da República!” Ele ia era ser enrolado pelos outros...o país mergulharia no caos.

 

        Candidato bom era Ciro Gomes. Esse, sim, tinha capacidade. Depois, virou a casaca. Passou a idolatrar Garotinho. Ora, Garotinho havia prometido pagar salário mínimo de 400 reais. Já havia feito isso no Rio com os funciona'rios públicos. Quando Serra foi para o segundo turno, não teve dúvidas, migrou para o ninho tucano. Eu falava, falava, objetava, citava números, fazia análises... nada. Lula, nem pensar. Mas Lula chegou lá e pouco tempo depois tornou-se o queridinho do velho. Bastou dar aquele aumento no salário mínimo de 40, 00 reais. Ele ouvira que Fernando Henrique daria apenas 11,00. Nossa, Lula ascendeu do inferno ao céu como num relâmpago. E alinhou-se ao Presidente de forma irreversível. Nunca mais falou mal de Lula, mesmo com o noticiário desfavorável.

        Era um doce derretido com as pessoas do meu círculo de amizade. Humilde, jamais fechava o semblante para algum colega meu. Trazia o melhor sorriso no rosto. E fazia questão de se apresentar como Renato Travassos Mendonça, pai de Nonato Reis. Engraçado, eu retirei do meu nome profissional o seu sobrenome. Mas nunca reclamou por isso. Não era de fazer carinhos, nunca foi de beijar os filhos. Expressava seu amor no jeito de ser. Tocado de emoção, pensei que, se Deus me concedesse a graça de tê-lo de volta recuperado, ainda lhe escreveria algo assim, de como o vejo e sinto.

        Mas Deus lhe tinha outro projeto. E foi assim que partiu. Livre, leve, saudoso dos que deixou por aqui, mas certamente ansioso por rever os entes queridos que o aguardavam do lado de lá. Pai, tu sabes que estas palavras brotaram do coração. E do fundo da alma te digo: vai. Leva contigo o nosso amor e a eterna gratidão da família. Por esses anos de felicidade vividos contigo e por ti.

 

Saudade



Escrito por Nonato Reis às 12h27
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