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Saudade de Pasárgada

 

 

Quando menino adorava folhear os livros de geografia. Mas não eram os textos que me fascinavam e, sim, as fotografias de página inteira. Extasiava-me a exuberância do relevo brasileiro. O verde das matas, de tonalidade única; a imensidão do rio São Francisco, serpenteando montanhas e enseadas, rasgando florestas e chapadas para, enfim, garantir a sobrevivência de centenas de comunidades ribeirinhas; a plasticidade de dunas e lagoas cristalinas, estendendo-se no horizonte como um enorme lençol de areia a beijar o infinito azul.

Nada, porém, prendia tanto os meus olhos como a vida urbana das grandes cidades. Aquelas fotos do Rio de Janeiro, enquadrando velhos cartões portais como o Pão de Açúcar, Cristo Redentor, Copacabana e Enseada do Botafogo, provocavam-me ondas elétricas de prazer. E tinha São Paulo com seus espigões imensos, como o edifício do Banespa, que se erguia aos céus como um foguete espacial. Eu, menino nascido e criado no mato, acostumado ao convívio de animais, pássaros e plantas, via aquelas imagens como roteiro de uma vida de sonhos, um mundo inatingível, surreal.

Mas de todas as fotos impressas, as que mais me afetavam os sentidos eram as de trânsito. Ver aquelas filas imensas de veículos tomando todas as faixas da Avenida Paulista era uma espécie de colírio. Sempre fui vidrado em carro. Bastava ouvir o ruído de um velho motor chevrolet a 100 metros de minha casa para sentir a pele eriçada. Corria feito louco pela estrada de chão batido, aberta em plena tabatinga. Muitas vezes, quando chegava ao ponto alvejado, o caminhão já havia passado. Deixava para mim apenas a nuvem de poeira e o cheiro de óleo queimado, que eu inalava como um presente dos céus.

Para muita gente carro e trânsito congestionado foram, por décadas, sinais de prosperidade. Cidade grande e bem-servida era aquela que ostentava imensas avenidas abarrotadas de veículos. Foi assim que São Paulo alinhou-se a Nova Iorque, Tóquio, Londres e Paris, compondo o seleto clube de metrópoles planetárias. O tempo passou e a concepção mudou. Hoje cidade desenvolvida é aquela que consegue harmonizar carros e pedestres, que transforma seus espaços públicos em áreas de lazer e concentração de oxigênio.

Chegou-se à conclusão, ainda que tardia, que trânsito congestionado é fator de desequilíbrio mental e desagregação orgânica. Muitas cidades no mundo estão revendo suas políticas urbanas e modificando a configuração da sua malha viária. A ordem é investir em transporte de massa, priorizando as redes de metrô e trens de superfície. Desse modo, inibi-se o uso do veículo de passeio em dias úteis. Só um maluco optaria por sair de carro para o trabalho, gastando combustível caro, enfrentando filas quilométricas de engarrafamento, perdendo tempo e bom-humor, se tivesse a sua disposição um transporte de passageiro eficiente, rápido, confortável e barato.

Infelizmente, quase todas as coisas boas só nos tocam os sentidos por último. Enquanto Paris, Tóquio, Londres e Nova Iorque reduzem os espaços dos veículos, ampliam as linhas de metrô e redimensionam suas áreas de lazer, no Brasil e nos demais países subdesenvolvidos o carro reina absoluto nas ruas e avenidas, e a cada dia investe-se mais na construção de corredores de transportes, túneis, elevados e vias expressas. Não admira que São Luís tenha apenas 1 milhão de habitantes e uma frota de automóveis beirando a casa de 200 mil. Certas horas do dia tem-se a impressão e a angústia de estar em Bombaim, na Índia. Hoje sei. Era ingênuo. Manuel Bandeira é que estava certo. Bom mesmo é morar em Pasárgada.



Escrito por Nonato Reis às 11h53
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De fantasmas e mofo



 


As imagens parecem extraídas de um filme de terror. Mas não. Estão guardadas na história e dela emergem vivas, nítidas, constrangedoras. Crianças de sete a dez anos de braços abertos, suspensos no ar. Ao menor sinal de relaxamento dos músculos, pancadas na cabeça, nas costas e no tórax. Meninos de joelhos sobre pedras de sal, pontiagudas, ou caroços de milhos espalhados em piso de pedra socada, durante 20, 30 minutos. Tudo feito com o beneplácito, e até mesmo participação da família que, muitas vezes, complementam o suplício em casa, com mais uma sessão de tortura.


De que falo? Do ambiente de uma escola de alfabetização nos anos 60 e 70. Fui testemunha ocular e às vezes vítima desse método dito pedagógico. Minha sorte, ou menor desventura, é que fui um aluno aplicado e geralmente passava ao largo das punições. Mas presenciei cenas degradantes. Colegas com os corpos sangrando, açoitados por mãos e mentes delirantes, que se compraziam na dor. Só muito tempo depois compreendi a razão desse deleite, quando li Dom Paulo Arns, no prefácio do livro Brasil: Nunca Mais, em que alerta sobre o estado de bestialização de ser humano diante da tortura.


Apesar de espectador na maioria dos casos, tomei doses amargas desse remédio. Uma delas acompanha-me até hoje. Foi o dia em que levei um surra elevada ao cubo. Instigado por colegas, decidi medir forças com um primo oito anos mais velho. Apanhei impiedosamente. Depois, com os lábios e nariz sangrando e a farda esfarrapada, encarei uma palmatória de pau darco, larga, recheada, e a mão pesada de uma diretora atarracada, que mais parecia arremessadora de dardo. Doze repetições depois e as mãos ardendo feito lingüiça na brasa, era hora de encarar o pai, armado de caniço de tamarindo. Foi uma bela sova. Nunca mais quis me meter em confusão.


Mas por que remexo os porões da memória e ressuscito fantasmas? Por que, na verdade, eles nunca morreram, continuam a nos assustar em pleno século XXI. Leio nos jornais que um menino de sete anos foi mantido atrás da porta da sala de aula, durante mais de 3 horas, como castigo por ter se esquecido de devolver um livro que tomara emprestado na biblioteca. A professora que impôs o castigo não se lembrou de suspender a pena e a criança foi deixada na escola, sozinha, abandonada. Só foi localizada por volta de 19h30, ainda atrás da porta, tremendo de medo.


Mesmo nos tempos em que a palmatória reinava absoluta casos assim eram tratados como exceção. O ato dessa professora, cominado com a atitude negligente da escola, não caracteriza apenas desvio de comportamento ou abuso de autoridade, mas crime previsto em lei. Código Penal, art. 148 - "Privar alguém de sua liberdade, mediante seqüestro ou cárcere privado: pena - reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos. A mesma situação é prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente. O Art. 230 do ECA assinala: "privar a criança ou o adolescente de sua liberdade, procedendo a sua apreensão sem estar em flagrante de ato infracional ou inexistindo ordem escrita da autoridade judiciária competente: detenção de seis meses a dois anos".


Não sou advogado e a Ariane me corrige, se estiver errado. Entendo que a família desse garoto pode mover uma ação contra a professora e a escola, exigindo a punição conforme previsto no Estatuto. E mais: requerer uma indenização por danos morais e contra a vida. Há como delimitar-se a extensão desse episódio na formação psíquica da vítima? Creio que precisará de acompanhamento profissional pelos próximos dez anos, no mínimo. E alguém terá que arcar com os custos desse tratamento. Ou não?


Mas esse fato abre um outro ângulo de observação. Chama atenção para o tipo de professor que estamos formando. Quem apela para métodos típicos de regimes militares não tem controle didático nem formação moral para ministrar conteúdos pedagógicos. Deveria estar habitando as celas imundas dos antigos doi-codis, convivendo com as almas penadas do passado, não numa sala de aula, na frente da lousa. Educar é lapidar o espírito, criar laços de afetos, estimular a convivência pacífica, respeitar direitos, abrir janelas para a vida. Difícil entrar numa escola e não sentir o cheiro forte de mofo, aqui e ali. Há que expurgar.



Escrito por Nonato Reis às 09h47
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