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Sua excelência, a esfinge!

 

 

Ao longo de décadas construí uma relação complicada, suada, dorida. Nossos primeiros encontros ainda no frescor da infância foram desastrosos. As mãos, gélidas, tremiam num ritmo desconexo; o coração alternava fortes batidas com quase-paralisia; o cérebro, patético, acorrentava-me os pensamentos e eu só conseguia enxergar uma tela branca, virgem, imaginária. Sofri anos a fio com um amor de sentido único. Só eu queria, só eu sentia, só eu conhecia os sonhos que me atormentavam a alma.

 

Nessa época já era leitor assíduo de grandes autores. Devorava os livros de Graciliano Ramos, Machado de Assis (aliás, dos dois quem é maior?), Rachel de Queiroz, Aluízio Azevedo (tem romance mais descritivo que O Cortiço?), Gonçalves Dias, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto e tantos outros de uma lista interminável. E, à medida que ia me aprofundando no ambiente psicológico dessa gente iluminada, uma força negativa, um sentimento de impotência atravessava-me a corrente sanguínea, queimando-me corpo e espírito.

 

Por que só a alguns é dado o privilégio de tocar o sublime?  Cresci com essa pergunta martelando-me a mente. Veio a adolescência. Terminei o ensino básico. Entrei na universidade. O velho trauma do amor não-correspondido acompanhava-me como um trambolho a que nos vemos obrigados a carregar debaixo do braço ou uma sombra impertinente que se move colada à matriz. Na faculdade o sofrimento foi ainda maior. Havia uma espécie de contagem regressiva para o fim do meu dilema.   Como se um monstro de sorriso enigmático repetisse em profusão a ameaça que alimentou o mito histórico: “decifra-me ou devoro-te”.

 

Os anos se foram. Levaram consigo essa parte de mim. Hoje, lendo Ariane, Diana, Dora, Elise, Maria Cláudia, Márcia, Loba e tantos rostos especiais dos blogs, sei que não podia mesmo ir muito longe na linha sinuosa que tracei como destino. Na vida há um dualismo de sorrisos e lágrimas. Meu sonho era ser poeta. Desses que nos fazem beijar a lua, abraçar estrelas, fundir-se à placidez do infinito. Como Regis Marques. Mas...tomei atalhos. Tornei-me jornalista. Pássaro inquieto, que deseja planar sobre o ar e se sente preso ao ninho. Havia uma morada no meio do caminho.



Escrito por Nonato Reis às 11h52
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A mão que assalta


 


            Pense rápido e responda sem pestanejar. Como você reagiria se descobrisse, de repente, que uma mão ágil e silenciosa salta sobre o seu salário, todos os meses, e leva metade dele? O que faria se soubesse que essa mesma mão desce sobre as máquinas de remarcação de preços e eleva o valor do produto que você compra no supermercado, na padaria, na frutaria, no shopping ou na concessionária de veículos em percentuais que variam de 30 a 100% do custo de fabricação? Perderia a ação diante do susto? Teria um acesso de raiva e cortaria em picadinhos o tal intruso? Ou sofreria um ataque cardíaco fulminante?


 


            Neste caso, previna-se. Tome um calmante, respire fundo e prossiga comigo, ou dê um clique no alto da tela e vire a página. O trabalhador nem se dá conta, mas metade dos 340 dias anuais de suor derramado no serviço é destinada a aplacar a fome de recursos do governo, na forma de impostos, taxas e outros tributos. Minha análise tem como fonte um estudo do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), feito a pedido da Associação Comercial de São Paulo que, junto com suas congêneres do Rio de Janeiro e Minas Gerais, decidiu encampar um movimento para agilizar a segunda etapa da reforma tributária, empacada no Congresso Nacional.


           


            A pesquisa do IBPT toma como referência um salário hipotético de R$ 3.000,00. Foi constatado que a soma dos tributos pagos pelo trabalhador e por sua empresa chega a R$ 2.773,00, o equivalente a 91% do salário. Inacreditável? Então, discriminemos: o trabalhador, neste caso, paga 516 reais de Imposto de Renda e contribuição previdenciária. Gasta outros R$ 856,00 em tributos indiretos (compras de supermercado; vestuário e calçados; pagamento de água, luz, telefone etc). E mais R$ 42,00 que correspondem aos tributos sobre o patrimônio (IPTU e IPVA). Somando tudo, dá 47% do salário. Acresça-se a esse valor os 44% pagos pela empresa (R$ 1.319,00) e o valor final bate certinho no patamar de 91% da remuneração.


 


            É de se perguntar: por que o governo investe com tanta volúpia sobre a renda do trabalhador? Simplesmente porque há uma crônica anemia de recursos no caixa da União e uma demanda por dinheiro cada vez maior. Cerca de 60% de tudo o que o país arrecada desce pelo dreno do serviço da dívida (que contempla o pagamento de parte do valor contraído mais os juros). Outros 30% (percentual arredondado) é destinado ao pagamento de pessoal. Do que fica, uma parte vai para o custeio da máquina, outra compõe o superávit primário (reserva imposta pelo FMI para dar garantia aos credores) e o que sobra é aplicado em setores essenciais.


 


            Não é difícil concluir que nos esfolam a pele para que o país honre seus compromissos. E como é que se sai de uma sinuca dessa? Sair é difícil. Mas certo é perguntar como se administra essa camisa-de-força. O governo toca o barco em duas frentes: na primeira, tenta estimular as exportações, o que aumenta as reservas em dólar. Mas aí surge uma pedra no meio do caminho: não há como ampliar em níveis maiores o comércio externo porque o país não tem logística (porto, estradas etc) compatível para bancar o aumento de produção.


 


            Resta a outra alternativa: atrair a entrada de capital especulativo, via aumento nas taxas de juros. Mas isso impõe um ônus tremendo, porque onera a produção, inibe o consumo e rebenta com o equilíbrio fiscal, já que, elevando os juros, inflaciona-se também o dinheiro tomado emprestado aqui dentro e lá fora. Daí porque o Executivo tenta a todo custo aprovar no Congresso o projeto das Parcerias Público-Privadas, o chamado PPP. Ele dá o suporte legal para que as empresas financiem os projetos de infra-estrutura na área de energia e transporte, essenciais para o desenvolvimento do país.


 


            O certo é que, imerso num ambiente de perplexidade e sem um projeto claro de desenvolvimento, Lula tem chances mínimas de sair dessa fôrma de gesso herdada de seus antepassados e reforçada no governo atual. Não é à toa que a área econômica resiste bravamente a qualquer ação que vise a reduzir o impacto da carga fiscal sobre a produção. É que cortando receita, promove-se o colapso, aniquila-se o governante. Lenta, pesada, enferrujada, a burocracia estatal é um monstro insaciável. Em plena campanha de 2002, Lula pronunciou uma frase emblemática, eternizada agora no filme Entreatos: “Meu medo é que a máquina conquiste a gente”. Bela premonição.



Escrito por Nonato Reis às 15h15
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