Lenda ou mistério?
Todos os dias a frase martelava-lhe o cérebro feito cutelo sobre latão. “Menino que sai de casa ao meio-dia currupiro assombra”.
– Mãe, o que é currupiro?
– É um negrinho de uma perna só que habita os cocais. Adora aparecer para crianças teimosas que não respeitam os pais nem os horários de descanso.
– E o que ele faz?
– Assombra, meu filho.
– O que é isso?
– É uma magia. A criança fica perdida no meio do mato. Não reconhece o caminho de casa. Tem febre, dor de cabeça, delírios. Pode até morrer.
Nunca acreditou piamente naquela estória. Já ouvira dezenas de relatos sobre aparições de saci. Mas sempre ficava com a pulga atrás da orelha. Que currupiro é esse que só aparece para os outros? Vivia a se perguntar. Um dia, estimulado pela irmã mais velha que chegara da cidade para uma temporada de férias, vestiu-se de coragem. Após a ceia, pegou-lhe o braço, embrenhou-se com ela na mata, encheu os pulmões de ar e soltou o verbo: “Currupiro, se você existe de fato, aparece que eu quero te ver”. Afora o eco das próprias palavras, ouviram apenas o canto distante de uma cigarra.
Imerso no quase-silêncio da floresta esqueceu rápido o contato com a entidade mitológica, absorvido pela beleza da paisagem de um verde exuberante, pontificada de árvores seculares, córregos de águas transparentes, pássaros, animais, peixes. Logo chegaram outros colegas e a vadiagem rasgou a tarde como um relâmpago. A noite chegou sutil. Correu ao rio e banhou-se, displicentemente. Caminhou sem pressa os 300 metros de capoeira que cercava a casa de campo. Ao pisar o primeiro degrau da escada de acesso à porta de entrada, uma espécie de choque magnético o acometeu, obrigando-o a dirigir a visão para a parte de baixo da laje de tábuas.
Lá estava ele. Do outro lado do sobrado, próximo ao jirau de varinhas. Tinha cerca de 1 metro e meio. Negro como noite sem lua. O corpo cintilante, como que revestido de luz. Braços e perna (não lembra se era um ou dois membros) decorados em listras de cores fortes (vermelho, verde, amarelo, talvez azul). Entre patético e deslumbrado acompanhou atentamente aquela cena exótica. Com ar circunspecto, enigmático, a criatura balançava o corpo de um lado para outro, como se ensaiasse passos de uma dança inédita. Aluno aplicado, o menino repetia cada movimento.
E ali permaneceu esquecido do tempo. Até que se lembrou da irmã do meio e com ela quis dividir aquele ambiente mágico. Ao voltarem, nada mais havia. Nenhum sinal de vida. Mas a imagem ficaria guardada para sempre com um misto de respeito e reflexão. Seres sobrenaturais devem ser classificados como lenda? É certo enquadrar manifestações de conteúdo alegórico apenas como efeitos de expansão da própria mente? Para aquele menino, saci, curupira, caipora, mula sem-cabeça, lobisomem formam uma espessa bolha de mistério. Por não saber desvendá-la, espoca-se.
Escrito por Nonato Reis às 13h54
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