Grito do silêncio
Sexta-feira, 20 de março. O ano, 1991. Havia guardado o alerta da mãe que ouvira em sonho a voz ressoar estridente por trás de uma sepultura. “Prepare-se para a morte dele”. Um dia depois na quietude do leito, diante dos olhos em repouso, a cena projetou-se límpida, apavorante. Um carro desgovernado. Corpos agonizantes sobre o asfalto molhado. Vinte metros adiante uma turba irada, armada de paus e pedras, corre em sua direção. “Pega ele, pega ele”. Desce do veículo, lança-se em fuga alucinada. A palavra toma-lhe de assalto o pensamento: “assassino, assassino!”.
O dia amanheceu luminoso, sonoro, dissipando a quietude e os agouros de uma madrugada sombria. Na redação do jornal a rotina da notícia o absorve. Reunião de pauta, formação de equipes de reportagem, telefonemas, entrevistas, checagem de dados, edição. Num abrir e fechar de olhos o sol rasga o horizonte, cruza toda a extensão da abóbada celeste, esconde-se por trás da cadeia de montes dispersa no sentido oeste da cidade. Como um imenso cobertor negro, a noite cai pesada, espessa, silenciosa. De volta pra casa, pára na banca de revistas da padaria. Pega um exemplar de jornal. Na capa, a manchete em letras garrafais: “Repórter embriagado atropela e mata casal de namorados”.
Com mãos trêmulas e olhos ávidos, devora o texto de abertura. “Eram 03h25 desta sexta-feira, 20 de março, quando o fusca de placas AJ – 2356, dirigido pelo jornalista (...) provocou uma tragédia no cruzamento da Rua Euclides da Cunha com a avenida Celso Magalhães, no centro da cidade. Aparentando embriaguez alcoólica, o condutor do veículo avançou o sinal. Freou bruscamente. Perdeu o controle da direção. O carro subiu a calçada da margem direita da avenida. Chocou-se contra um poste de iluminação. Um casal de namorados teve morte súbita. O motorista evadiu-se do local. A polícia está a sua procura”.
Entrou em casa como um autômato. Escancarou a porta do banheiro. Despiu-se, sofregamente. Abriu o giro da torneira do chuveiro. Deixou-se ficar refém da água. Como se o líquido em jato morno pudesse expulsar as impurezas impregnadas no espírito. E viu os pensamentos em profusão descerem pelo ralo a seus pés. Pegou a toalha de felpa. Esfregou os cabelos e o rosto. Dobrou o pano ao meio e com ele fez um laço na linha da cintura. Sentou-se no sofá. Ligou a TV. Fechou os olhos. E sorriu aliviado por flagrar-se liberto do pesadelo. Viu-se, finalmente, como um refém a salvo do cativeiro.
De repente, lembrou-se do carro estacionado na frente do prédio em que morava. Não tinha garagem. Toda noite obrigava-se a percorrer cerca de 500 metros até a casa de uma prima, onde guardava o veículo. Levantou-se, pegou as chaves, foi cumprir sua rotina. Entrara na Rua 40 quando a voz de Marina Lima ecoou no radinho de pilha sobre o banco do passageiro. “Meu amor se você for embora/ sabe lá o que será de mim (...)” O giro do motor prejudicava a recepção da música. Esqueceu a rua. Sacudiu o aparelho de um lado e de outro para captar a melhor sintonia. Tarde demais.
Ao retomar o volante notou que o veículo afastava-se da pista. Tentou corrigir a trajetória. Sem sucesso. Como que guiado por força estranha o carro subiu a calçada do lado direito. Alinhou-se. Partiu firme. Com o coração aos pinotes avistou a 50 metros um casal de namorados sentados no chão, um de frente para o outro. Pisou no freio. Inútil. Girou o volante. Nada. Aterrorizado viu os jovens crescerem a sua frente... e o fusca esmagá-los num ruído sinistro. Em linha reta prosseguiu a rota criminosa. Passou por cima de um monte de lixo. Chocou-se de frente com um poste de iluminação, provocando curto-circuito e blecaute.
Às escuras, abriu a porta do veículo, caminhou para trás. Gritos alucinados ecoavam de dentro das casas, ganhavam a rua. “Meu Deus, meu Deus! Socorro! Acudam!”. Com os olhos embaçados viu homens e mulheres correndo em sua direção. “Pega ele, pega ele!”. Permaneceu estático. Sentiu o estalo de um osso quebrando. E um baque surdo no corpo. Rodopiou. Beijou o asfalto. Um gosto azedo de sangue tocou-lhe o paladar. Uma mancha vermelha surgiu na linha dos olhos. E foi crescendo, crescendo, desfocando-se. Até congelar. Então ouviu o grito romper o peso do silêncio, emergir do fundo do inconsciente: assassino!
Escrito por Nonato Reis às 15h01
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