Mistério na Noite
O lugar tinha fama de assombrado. O chão de vegetação rala onde outrora existira uma casa de fazenda guardava estórias escabrosas. Como a de um negrinho que teve o corpo atravessado por uma estaca de pau d’arco. O infeliz tivera a má sina de se apaixonar pela filha do senhor de engenho e dentro dela depositar o próprio sêmen. Morreu feito peixe no espeto. Outro caso arrepiante foi o de uma velha escrava, que penou quarenta dias sobre uma cama de talo verde, antes de morrer urrando feito vaca com uma doença que lhe espicaçou os ossos.
Havia mesmo qualquer coisa de misterioso no ambiente da tapera. Talvez a harmonia absurda – uma sensação de paisagem congelada como se o tempo houvesse caído na armadilha de um clique fotográfico. A despeito dessa impressão a vida consumava-se ali em profusão. O verde das árvores assumia uma tonalidade sumo; o vento soprava em rajadas ruidosas; pássaros e animais ecoavam cânticos e grunhidos em coro sinfônico. E tinha o grito...
Bastava pressionar os lábios um contra o outro e soltar o ar duas ou três vezes. O som parecia ecoar das entranhas da terra - vigoroso, medonho, dominador. Uns diziam que era a alma do negrinho sob o martírio da estaca encravada no coração. Outros acreditavam tratar-se do fantasma da velha subjugado pela dor lancinante do câncer. E havia também os céticos que atribuíam o fenômeno a uma espécie de ave de rapina típica da região, que usava o sinal como recurso de defesa contra inimigos da floresta.
O garoto ouvia excitado os relatos e explicações dos mais velhos. Não se conformava com a cena rasgada sem um ponto convergente. Havia grito realmente? E se havia, qual seria a origem, de quem ou do quê provinha? Um dia juntou irmã e prima e propôs a expedição. Melhor do que ouvir estórias de pescador era viver a experiência na pele, nos olhos, no tato. E foram os três. Ao chegarem na grota indicada para o chamamento, apertou os lábios com força, encheu os pulmões de ar e fez o som vibrar pela boca semi-aberta. Ouviram apenas o cântico triste de um galo distante.
Repetiu a operação e nada. Tornou a chamar o grito. Silêncio. Voltaram para casa certos de que, se havia algo de misterioso naquele lugar, era produto da imaginação e do medo das pessoas. À noite, como de costume, o menino acompanhou o pai na pescaria de monzuá (1). Duas horas da manhã todos os depósitos estavam cheios de piranha. E ainda havia excedente. O pai ordenou-lhe que pegasse uma lamparina e fosse até a casa buscar mais gaiolas.
Tempo de inverno, frio de bater queixo. Noite escura feito breu. Ávido por chegar em casa, nem percebeu que tomava o caminho mais longo da tapera. Ao passar pela grota, quase chegando na boca do mato formada de dois tucunzeiros (2) sentiu os pêlos do corpo encrespados e arrepios na nuca. Foi então que ouviu passos apressados atrás de si... e uma parada brusca. De repente um grito estrondoso rasgou o silêncio da madrugada e arremessou a lamparina para longe. Ainda ouviu o som do apetrecho caindo em algum ponto da mata. Despertou com o calor do sol a pino, o corpo queimando de febre.
Escrito por Nonato Reis às 12h52
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Cuba aprisionada
O regime de exceção pelo mundo, e em especial no Brasil, nos legou uma memória traumática. Houve uma época em que a simples evocação ao verde-oliva, cor predominante no uniforme do Exército, provocava calafrios e uma torrente de imagens constrangedoras. Difícil esquecer as cenas de agentes da Polícia Federal infiltrados nas universidades, bisbilhotando a vida de estudantes. Cidadãos de bem sendo vigiados, amordaçados, exilados. Nas ruas a polícia reprimindo, agredindo, prendendo. Nas prisões a dor e a ignomínia solapando a vida.
Crescemos com a visão de opostos. De um lado, o medo, a tortura e a infelicidade da direita extremada, conservadora, ditatorial; de outro, o charme, o sonho e a esperança de um regime que prometia igualdade de direitos, justiça social, fraternidade. Passaram-se os anos. O muro de Berlim caiu, levando consigo a União Soviética e todo o bloco de países alinhados à filosofia marxista. Um jato de luz infiltrou-se nas entranhas da cortina de ferro, revelando uma verdade estarrecedora. Também lá adotavam-se práticas terroristas como salvaguarda. Na China e no leste europeu houve tortura, morte, canibalismo.
Por que recorro a fatos do passado? Para tentar pôr ordem no ambiente psicológico. Costuma-se trucidar ditadores como Pinochet, Galtieri, Médici... todos representantes de uma vertente militar conservadora e assassina; e endeusar comandantes revolucionários como Lenin, Stalin, Fidel Castro, igualmente ditadores e sanguinários que fizeram ou fazem de tudo para perpetuar o regime dito socialista. Em Cuba, liberdade é palavra mórbida. Ninguém sai, ninguém entra e se pensar diferente é tachado de "conspirador", vai mofar em presídios abjetos ou morrer fuzilado em paredóns.
Pergunto sem a menor inclinação de lado, qual a diferença fundamental entre Castro e Médici? Alguém pode alegar que Fidel pôs fim a um regime corrupto, excludente, assassino. Promoveu reformas de base. Investiu em educação e saúde. Tudo isso é verdade. Médici pegou o bonde do regime andando. Fortaleceu a indústria de base, aplicou solidamente em infra-estrutura. No seu governo a economia viveu um ciclo de desenvolvimento que ficou conhecido como +o milagre brasileiro+ com taxas de crescimento de até 11% ao ano.
Essa parte, porém, constitui um dado aleatório para a comparação que se pretende entre os dois. Onde Castro e Médici de tão próximos se abraçam é na prática do mal. Ambos torturaram, mataram e deportaram, com a diferença que um é página virada e o outro continua mandando e desmandando. Se alguém tem dúvida da ação criminosa do “Comandante” e acha que escrevo movido por sentimento inconfesso, sugiro ler esta pequena síntese de entrevista de um recém liberto do cativeiro castrista.
Manuel Vazquéz Portal é um jornalista cubano independente. Por sua atuação destemida contra o regime de Fidel, foi preso e condenado a 18 anos de detenção. Em junho de 2004 ganhou liberdade por razões de saúde. O seu depoimento: “(...) diria que passei quinze meses dentro das latrinas de um quartel, ou dentro de um curral de porcos. (...) Você não vê ninguém, não fala com ninguém, e é preciso ter muita disciplina para não delirar. (...)A cela ficava inundada todo dia quando nela penetravam as águas residuais. (...) Eu tinha ferros amarrados nos pés e algemas nas mãos. (...)Eles me tosquiaram a cabeça e o rosto”.
Não há um álibi possível para o governo ditatorial de Cuba. Nem mesmo o tão propalado modelo de ensino. Certa vez num congresso acadêmico, em que se destacavam os feitos notáveis do ditador, fiz uma singela pergunta a um conferencista da ilha caribenha. “Se a educação de lá é tão eficiente, porque não conseguiu alavancar a economia de vocês?” Ele gaguejou e responsabilizou o bloqueio imposto pelos Estados Unidos, a desintegração da União Soviética, que suprimiu generosos subsídios, e a represália de países alinhados com a potência ocidental. Pobre Cuba! Em décadas de isolamento, fome e exceção não conquistou sequer o direito de pensar com liberdade.
Escrito por Nonato Reis às 12h44
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