
Verde-estanho
- O que você procura nos meus olhos? O reflexo da sua imagem ou parte de um tempo perdido?
A pergunta surgiu de chofre. Como língua de fogo projetada das bocas abertas de fogão a gás, alcançou o interlocutor num piscar de olhos, queimando-lhe a face e as narinas. Patético com a reação inesperada, não conseguiu ordenar uma sílaba sequer. Apenas os lábios dançavam num frêmito desconexo tentando ensaiar algo compreensível. Não havia uma resposta plausível. Aliás, tudo ali era irracional. A festa, os convidados, a música, a dança... ele próprio.
Tivesse um pouco de juízo estaria a quilômetros dali. Nunca soubera lidar com aquela mulher. Desde menina tinha a capacidade de lhe deixar mudo. Diante dela perdia a noção das coisas. O cérebro enrijecia. O pensamento congelava. Como que tomadas de encanto as palavras desapareciam em nuvens de algodão.
- Paulo, o que você quer ser quando crescer?”. A resposta vinha na forma de grunhido.
- Hum?!
- Perguntei o que você quer ser quando crescer!
- Rum...
- Não conheço nenhuma profissão com essa palavra.
Ao contrário das suas amarras verbais, sempre fora fluente com o verbo. Ao seu lado dissecava o corpo humano, mergulhava no universo da filosofia, interpretava as parábolas do Cristo, falava do seu ideal de beleza. “Um dia ainda vou ser coroada a mulher mais bela desse país”, dizia com o olhar perdido na imensidão do rio Maracu. Não chegou a tanto, mas conseguiu exibir no peito a faixa de Miss Pará e até participou de um concurso nacional promovido pelo programa Silvio Santos.
Ouvia tudo em silêncio. Nas festinhas de radiola era o seu par predileto - na verdade único. Dançavam de rosto colado da primeira à última música. Quase sem trocar palavras. Algumas vezes ela dizia. “Vou ao banheiro, espere-me aqui”. Não havia quem duvidasse que mantinham um romance secreto. Quando alguém lhe perguntava a respeito, usava um estratagema surrado. “Quem sabe o que se passa no coração dos outros?”.
Muitos sonhos rolaram ribanceira abaixo. Dalva foi embora, sumiu do seu campo visual. Ele se tornou homem. Noivou e marcou casamento. Foi quando soube da notícia. Ela estava de volta. Tão linda quanto impossível. E o convidara para uma festa. Algo do tipo “recordar é viver”. Foi com esse slogan colado ao coração que a tirou para dançar e os olhos cravou nos dela. E assim permaneceu noite adentro... E a pergunta o colheu de cheio.
Entre desafiado e amargurado compreendeu que não podia se tornar eterno refém do tempo. Que a vida lhe dava outra chance e que a felicidade estaria guardada numa daquelas metáforas tão bem construídas. Sorveu todo o ar a sua volta, fitou aquele rosto de beleza infinita e falou com a alma liberta, tal pássaro que deixa o cativeiro e risca o horizonte em linha reta. “Só quero ver o castanho dos olhos meus imersos no verde-estanho dos teus”. Era primavera.
Escrito por Nonato Reis às 16h21
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