Conversa ao pé do ouvido
- Vejam. Os pés dela estão do lado de fora! O corpo cresceu, ficou maior que o caixão!
Repetiu a frase durante o velório, mesmo com o alerta das primas para que não brincasse com defunto. “Tu fazes galhofa, à noite ela vem e te afoga”. A advertência podia soar como inscrição de medo para qualquer menina da zona da mata, escaldadas com as estórias de aparição de espíritos. Menos para Joana, uma adolescente de personalidade forte e descrente. “Eu acredito muito em fantasma. E também em mula-sem-cabeça, saci-pererê, lobisomem, Papai Noel. Sou capaz de acreditar até na Emília”, dizia com ironia crua.
Nunca fora amiga de Firma. Com ela mantivera apenas relações cordiais. Jamais trocaram confidências. O máximo de aproximação a que se permitiram foi a celebração de um acordo ético para despachar um sujeito que lhes fazia a corte. “Joana, você está namorando o Paulo?” – Ainda não, mas confesso-me vaidosa com seus galanteios. “Sabia que ele vive me cortejando também?”. Foi o suficiente para combinarem o desfecho. - Daqui para frente ele deixa de existir na minha vida”. “Na minha também. Odeio homem galinha”.
A morte pegou Firma de surpresa. Gozava de plena saúde. Um dia, ao cair da noite – sem mais nem menos - o coração deixou de bater. A notícia correu mundo. Pegou Joana à beira do lago dando milho aos pombos. “Como pode?! Falei com ela ontem! Parecia ótima”. Ir à casa da defunta não estava nos seus planos. Detestava velório. O clima pesado de dor e tristeza oprimia-lhe o coração. Por razões desconhecidas flagrou-se num cômodo acanhado, repleto de gente. No centro da sala jazia o caixão, mutilado na parte traseira, com o corpo da falecida.
E foi com alívio que retornou à casa dos pais, após o adeus a Firma. A noite corria alta quando, finalmente, livrou-se dos afazeres domésticos, entupiu-se de cremes, vestiu a camisola e embrenhou-se na rede de fio de seda. Dividia o quarto de chão batido e paredes de palha de piaçaba com duas irmãs e uma prima. Apagaram a lamparina. A conversa entre as quatro passou a fluir no escuro. Joana desligou-se do ambiente. Seus pensamentos correram mundo. Alcançou cidades distantes. Viu-se na pele de personagens diversos - famosa, reverenciada.
Um leve ruído vindo da porta dos fundos trouxe-lhe de volta à realidade. Trêmula, percebeu passos ritmados em sua direção. O som gerado pelo atrito de tamancos de madeira contra o chão, iguais aos que calçavam os pés da finada, vibrava no coração de Joana com a força de ondas elétricas. Servia-lhe como indicador de distância. Quando a coisa chegou diante de si, o corpo perdeu vida – petrificou-se. Apenas sentiu a voz gélida penetrar seus ouvidos, esgarçar o cérebro. “Abre os olhos e vê. Meus pés estão do lado de fora”.
Escrito por Nonato Reis às 09h45
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