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Batom e sedução

 

“Batom realça e seduz. No teu rosto falta luz!”

A frase tocou-lhe o espírito como uma chicotada. Pega de surpresa, viu-se acorrentada por mãos invisíveis. De súbito quis reagir, defender-se do que lhe parecera uma indelicadeza, no mínimo; ou um insulto grosseiro na melhor definição. Sem o recurso da voz e quase órfã de movimentos, optou por uma defesa cúmplice.

 Deu um salto da cadeira, correu na direção do banheiro, abriu a bolsa. Nas mãos trêmulas segurou o cilindro dourado de ponta vermelha e com ele redesenhou as linhas da boca, esfregando os lábios entre si até obter uma tonalidade homogênea. Consultou o espelho. Havia luz?

Havia desconforto. Em seis meses de convívio, acostumara-se com o sorriso fácil e o jeito sedutor daquele garoto de ar displicente. Diante dela, derramava-se em elogios. Tinha sempre uma palavra de carinho ou uma frase poética escrita em pedaços de papel a lhe emoldurar a beleza. Como nestes versos quase simplistas:

“Meu coração é bobo, atrevido

Chato, insolente, vadio...

Mas tem bom gosto,

Sabe o que quer:

Você! Quem não vê?”

Feito manteiga derretida, abriu uma ponte com a alma: “Não sei mais viver sem os seus bilhetinhos”.

Brincavam num chão de areia movediça. Compreendeu- talvez tarde demais – que se havia metido numa arapuca insólita. Decidiu, então, recuperar o terreno perdido, delimitar os espaços.“Entre mim e ti não pode haver nada além de amizade. Ainda que eu quisesse ... quem pode mandar no coração? É a lei da vida.”

Como aluno aplicado, aceitou as regras do jogo. Continuou a tratá-la com mimos e gentilezas; mas nunca mais com desvios de intenção.

Achando que ganhara o tabuleiro, expôs a rainha. E foi assim que aquele bilhete explosivo a pegou no contrapé, lançando jatos de luz sobre a alma velada. Quando retornou à sala de redação com os lábios tomados de um vermelho escarlate e contemplou o sorriso de vitória no rosto dele, pôde afinal mensurar o tamanho do golpe. Viu-se refém de si própria, completamente desnuda. Na dualidade da vida romperam-se os diques de proteção; refizeram-se as linhas do coração. Havia luz?

Incandescia.

Escrito por Nonato Reis às 10h21
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