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Amor em câmera lenta
A timidez o acompanhava desde tempos imemoriais. Conheceu-a, talvez, no útero materno. Dividiu com ela as primeiras emoções. Juntos, brindaram a infância; aprenderam a jogar bola; brincaram nos campos encharcados de chuva; cresceram, chegaram à escola. Como um laço atado ao espírito, limitava-lhe a voz, os passos, o próprio querer. A ponto de formar um dueto contraditório: por dentro uma vida intensa, dinâmica, sonhadora; por fora um rosto sombrio, anêmico, amargurado.
Foi nesse ambiente de limitações que Marília invadiu sua órbita e passou a gravitar em torno dele como um satélite desgovernado. Tinha 16 anos. Na face iluminada exibia um ar de superioridade típico dos seres privilegiados pela natureza, que julgam esmagar o mundo em sua volta com seus atributos estéticos. Era o objeto de desejo dos homens e o alvo preferencial da ira feminina.
_ Vocês já viram como ela anda balançando a bunda?
_ Pouca vergonha! Transforma a sala de aula e os corredores da escola em passarela de moda.
_ Ah, e os babacas ficam todos de queixos caídos.
_ Idiotas!
Até mesmo a mãe reclamava do que considerava uma provocação. “Filha, você exagera. Não pode ficar desdenhando suas colegas desse jeito. Chega uma hora, vai acabar antipatizada por todas. Tenha respeito pelos outros”.
Pouco se lixava. “São um bando de invejosas. Não tenho culpa se elas não são desejadas nem têm competência para atrair o olhar de um homem. De minha parte só merecem desprezo. Respeito? Ora, mãe, isso não se impõe; conquista-se”.
[continua]
Escrito por Nonato Reis às 14h22
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[continuação]
Mantinha um foco linear sobre a sala de aula. Na sua visão, a turma era uma massa uniforme, irracional, em que pontificavam pobreza de espírito, ignorância, frustração, maledicência. Talvez pelo hábito de ver as coisas sob um ângulo rasgado, tenha-se demorado tanto a perceber um ponto destoante naquele cenário de coisas desinteressantes. Ele se achava num canto esquecido da sala, cabeça espetada nos livros, o olhar inflexo, disperso.
Ajustou as lentes sobre aquela figurinha franzina e viu que nela havia algo que a incomodava. Ao contrário do resto da turma que lhe devotava amor e ódio, ele sequer a percebia. Não lhe fazia a corte, não a cumprimentava, passava ao largo de sua presença, concentrado em si mesmo. Decidiu atacar, não porque o admirasse, mas pela ousadia do distanciamento. “Quem ele pensa que é? Não me conhece!”.
Optou pela estratégia mais cruel para ele – a exposição pública das suas amarras emocionais. Para espanto geral passou a cortejá-lo abertamente. Ao chegar, pela manhã, dirigia-se direto à carteira dos fundos, tomava-lhe as mãos entre as suas, derretia-se em mimos e palavras melosas. “Amor da minha vida, dá-me um único sorriso e serei a mulher mais feliz deste mundo”; “Vai, entrega-me a tua alma; deixa que eu te sirva o cálice da vida”; “Ergue esse rostinho lindo e fita-me nos olhos: vê quanta ternura eu guardo só para ti”.
Recebia os golpes com uma passividade perturbadora. Não ousava sequer levantar os olhos. Como estátua de cera, exibia a face desfigurada, numa tonalidade neutra – rija, inerte, gélida. As investidas de Marília e a falta de iniciativa dele acabaram por despertar na turma reações múltiplas, dividindo a sala em grupos diversos.
Havia a ala dos invejosos, para quem aquilo só podia ser um capricho dos deuses.
_ Como é que pode! O cara é matuto, feio, indeciso e tem a mulher mais bela deste mundo, implorando a sua atenção. Só pode ser brincadeira dos céus. É aquele troço: Deus só dá asas a quem não sabe voar.
Tinha a trupe que zelava pela imagem da espécie macho.
_ Olha aqui, seu f.d.p., tu tem que reagir. Agarra essa garota e dá uma lição nela, porque isso pega muito mal para nós. Tu é fresco? Não gosta de mulher?
Do lado das mulheres, a sensação era de desforra.
_ Bem-feito! Ela pensa que pode ter o mundo ajoelhado aos seus pés. O Paulo é o nosso herói. Ao recusá-la, lavou a alma de todas nós. Tem a nossa eterna gratidão.
[continua]
Escrito por Nonato Reis às 14h21
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[continuação]
Recusar Marília não estava nos seus planos. Não depois de toda a humilhação que lhe impunha. Jamais se sentira tão amargurado. Para a única irmã e confidente, dizia que tomava doses cavalares de um licor amargo. “Meu irmão, esse seu imobilismo apenas satisfaz a essa mulher. Porque é isso que ela pretende: te expor ao ridículo, na certeza que você jamais reagirá. Adote outra postura, faça o jogo dela, retribua as suas dissimulações e você verá como isso acaba num passe de mágica”.
Jogar com as mesmas armas, nunca. Tinha um plano melhor, que contemplava dois extremos. Ou se redimia por completo ou sucumbia para sempre.
A oportunidade surgiu de improviso. Aula de ciência. Vendo o desinteresse dos alunos, a professora achou por bem cobrar um trabalho sobre anatomia humana e sugeriu que a turma se dividisse em duplas. “Quero o Paulo comigo”, disse Marília com o braço erguido em riste, provocando uma breve sessão de riso contido.
_ Será que ela vai tirar a roupa pra ele e mostrar em quantas partes se divide o corpo humano?
_ Garanto que nem assim ele olha pra ela.
_ Anta do jeito que é, acho que seria capaz de tapar os olhos com as mãos e sair gritando: mamãe, socorro! Um bicho quer me comer.
Marcaram encontro às 2 da tarde. Pontualíssimo, bateu às portas do velho sobrado azul-turqueza, encontrando Marília ainda em trajes de dormir.
_ Oh, Paulo, desculpa. Cheguei tão cansada! O sono me levou.
Parecia outra mulher. Contida nos gestos, econômica em palavras, jeito de mulher séria. Ele também mudara: encarava-a de frente e mantinha o olhar circunspecto cravado no rosto dela. Entrou sem dizer nada. Seguindo a indicação dela, sentou-se à mesa da copa, diante de uma lousa envelhecida, que exibia marcas distantes de um mapa-mundi.
_ Espere-me aqui. Volto logo.
Dez minutos depois, Marília surgiu refeita; os cabelos ainda úmidos do banho rápido, mas devidamente escovados. Vestia um conjunto de saia preta e blusa branca, fechada na frente com um fitilho entrelaçado. “
_ Demorei?
Falou em tom íntimo.Ele apenas balançou a cabeça negativamente.
[continua]
Escrito por Nonato Reis às 14h21
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{continuação]
Sentaram-se frente a frente. Ela abriu o livro de ciência na pagina do corpo humano e começou a fazer a leitura da composição do esqueleto. “Os braços se dividem em úmero, cúbito e rádio; as mãos em carpo, metacarpo e dedos; os dedos em falange, falanginha e falangeta. As pernas...
_ Me dá a sua mão!
_Hã!?
_ Me dá a sua mão.
_Paulo!!!
Com extrema delicadeza, tocou-lhe a pele. Como serpentes enamoradas, suas mãos rastejaram ao encontro uma da outra, juntando-se num encaixe suave.
_ É assim que você vê as minhas mãos? Como uma divisão de ossos?
_ Paulo!
Senhor de si, tomou o rosto dela em suas mãos e fitou aqueles olhos graúdos, arregalados. Neles viu medo, surpresa, inquietação.
_ Trocamos os papéis, Marília? Hoje é você que treme diante de mim e se vê órfã dos seus sentidos?
_ Paulo, eu não queria...era só brincadeira; juro, não queria...
_ Nem eu quero explorar o privilégio de lhe ter nas mãos. O que acontecer – se acontecer – será por obra e graça das nossas vontades. Diferentemente de você que adora me ter em desvantagem, eu a quero em igualdade de condições; porque é assim que vejo o amor ou seja lá que sentimento for – como um ato solidário, mágico, harmonioso. Você me entende?
Não havia o que dizer. Descobriu-se, tal como suas colegas, pobre menina indefesa, acorrentada em seus próprios desejos, amargurada e infeliz.
Ele, ao contrário, tomou conta do cenário. Parecia ler cada frase estampada na tela imaginária do pensamento dela. Afagou-lhe o rosto, tocou-lhe a boca numa carícia despretensiosa. Marília encolheu-se.
_ Não tenha medo. Eu a quero feliz.
Então seus lábios se uniram e assim permaneceram indefinadamente.
Num movimento subliminar, dirigiu o olhar para a blusa entreaberta. Desatou os nós do fitilho, contemplou o relevo de formas arredondas. Na ponta do dedo indicador direito fez o sinal da cruz sobre cada uma das ondulações. Depois desenhou os trópicos de câncer e capricórnio; demarcou os pólos; teceu meridianos e paralelos; e protegeu o diagrama com um círculo achatado nas extremidades perpendiculares.
Ato contínuo, divisou o universo diante de si, girando em câmera lenta, em todo o seu esplendor. Na boca ávida de desejo, estabeleceu com um beijo o norte dos pontos cardeais; em círculos concêntricos ao redor dos mamilos cravou leste e oeste. Faltava demarcar o sul.
Na tela dos sonhos içou velas. Navegou por oceanos e mares. Singrou o horizonte líquido. Desceu em torrentes de desejos. Até aportar em mata virgem. Na exuberância da selva, deteve-se indeciso. Olhou para trás. Impossível retroceder. Entre fendas desapareceu. Querendo ser breve, descobriu-se eterno.
Escrito por Nonato Reis às 14h20
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