Como fogo em canavial o sentimento expandiu-se, passou a guiar seus passos e a dourar cada gesto e palavra de um para o outro. Se ela faltava ao trabalho, a saudade apertava-lhe o peito; tudo perdia a graça. Se o olhava com neutralidade, uma dor indômita espicaçava-lhe o espírito.
Recluso de amor, Liziane o surpreendeu pela segunda vez. Havia-lhe pedido um encontro – o primeiro a sós – para falar de algo que a incomodava. Porque a tivesse notado diferente nos últimos dias, julgou que o interesse por ele houvesse migrado para outros olhos.
Sentados à mesa de um restaurante à beira-mar, ela foi simples, direta, objetiva. Falou de amor com uma clareza desconcertante.
_ Me apeguei demais a você. E não sei o que fazer com isso. Estou com medo de perder o controle, porque você é casado e eu tenho namorado. Gostaria de saber o que você acha disso.
Pego de surpresa, apenas sorriu no início. Depois procurou atalhos, tentou uma saída ambígua:
_ Não há o que falar. É público e notório. Mas nada farei contra a sua vontade. Se você quiser, eu também quero.
Ficou uma mescla de indecisão no ar. Que cresceu com os dias e tornou-se uma cortina espessa de dúvida. Ele a queria de verdade ou apenas brincava com os seus sentimentos?
O desfecho foi inevitável.
_ Jamais serei tua amante. Se for para acontecer, você terá que vir inteiro.
Assustado com o tom de ultimato, atirou todas as fichas, abrindo um canal direto com o coração.
_ Eu a amo. Não a quero por uma noite nem como aventura. Você é a mulher da minha vida. Juntos, podemos escrever uma história de amor.
Podiam? Com lágrimas nos olhos e o rosto tomado de emoção, ela calculou as palavras; falou em voz metálica. Disse-lhe que aquilo era exatamente o que gostaria de ouvir desde o primeiro beijo e que precisava de um tempo para se decidir. Mas no segundo imediato estabeleceu o tamanho do fosso entre os dois.
_ Preciso te dizer: o que sinto por ti é menor do que o que você diz sentir por mim.
Pela última vez beijou a lona.
Como ato final, escreveu-lhe o mais belo poema. “Imperatriz, fonte, matriz/ tão longe, tão perto/ quase um triz”. A um passo do nada embrulhou sua alma naqueles versos. E seguiu viajante de luas e estrelas.
Escrito por Nonato Reis às 10h43
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