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                Imperatriz por um triz

 

 

Aquela mulher de traços delicados, sorriso tímido e aparência frágil tinha o dom de lhe surpreender. Em pelo menos três episódios cruciais, ela o pegou desprevenido, precipitando sentimentos, forçando situações inusitadas; reformando a própria lógica das coisas. Na primeira revelou-se iluminada; na segunda colocou o coração, puro e inquieto, em suas mãos; na última, quando ele se julgava dono da situação, disse adeus. Foi embora.

            Liziane tinha tudo para habitar a planície dos olhos dele - aquele lugar onde predominam o comum e o previsível - ou quem sabe até emoldurar um sentimento pequeno, indigente. Conheceram-se sob o signo da desconfiança. Aportara na redação da assessoria de pára-quedas com uma missão subjacente. Os colegas suspeitavam de que, mais do que escrever releases, sua tarefa seria a de bisbilhotar o comportamento ético dos assessores. Geralmente displicente, passou ao largo das especulações. No seu campo visual,  ela só habitava por tabela nas poucas vezes em que lhe pedia ajuda para compor um lead.

            O choque aconteceu mais de um ano depois de convívio diário. Havia decidido concorrer ao cargo de presidente de uma entidade de classe. Do dia para a noite viu as intenções de voto em seu nome minguarem. Com uma faca encravada no peito, acompanhava as investidas dos concorrentes sobre pessoas queridas. E amargurado compreendeu que não tinha amigos, nem mesmo colegas de trabalho. Sentiu o desfecho humilhante como algo iminente. Pensou numa saída honrosa. A renúncia, quem sabe.

            Foi quando a campainha do telefone tocou, tirando-o daquelas divagações. Do outro lado da linha, Liziane – voz aguda, ansiosa:

            _ Paulinho, liguei para dizer que, apesar do assédio dos outros, eu continuo contigo. Trato a todos com delicadeza. Mas meu voto é teu.

            Num relâmpago operou-se a química. De pessoa comum, Liziane transfigurou-se em mulher especial, com direito a espaço cativo em seu coração. Daquele dia em diante suas almas entraram em comunhão e passaram a trocar carinhos explícitos entremeados por promessas condicionais.

            _ Se você não fosse casado eu te namoraria, dizia abertamente.

           Ao que ele respondia com frases românticas, intercalando cada palavra com selinhos ao pé do ouvido.

          _ Eu (...) adoro (...) esse (...) teu (...) sorriso (...) cúmplice (...) sempre (...) que (...) eu (...) estou (...) pertinho (...).

Escrito por Nonato Reis às 10h44
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Como fogo em canavial o sentimento expandiu-se, passou a guiar seus passos e a dourar cada gesto e palavra de um para o outro. Se ela faltava ao trabalho, a saudade apertava-lhe o peito; tudo perdia a graça. Se o olhava com neutralidade, uma dor indômita espicaçava-lhe o espírito.

Recluso de amor, Liziane o surpreendeu pela segunda vez. Havia-lhe pedido um encontro – o primeiro a sós – para falar de algo que a incomodava. Porque a tivesse notado diferente nos últimos dias, julgou que o interesse por ele houvesse migrado para outros olhos. 

            Sentados à mesa de um restaurante à beira-mar, ela foi simples, direta, objetiva. Falou de amor com uma clareza desconcertante.

            _ Me apeguei demais a você. E não sei o que fazer com isso. Estou com medo de perder o controle, porque você é casado e eu tenho namorado. Gostaria de saber o que você acha disso.

            Pego de surpresa, apenas sorriu no início. Depois procurou atalhos, tentou uma saída ambígua:

            _ Não há o que falar. É público e notório. Mas nada farei contra a sua vontade. Se você quiser, eu também quero.

            Ficou uma mescla de indecisão no ar. Que cresceu com os dias e tornou-se uma cortina espessa de dúvida. Ele a queria de verdade ou apenas brincava com os seus sentimentos? 

            O desfecho foi inevitável.

            _ Jamais serei tua amante. Se for para acontecer, você terá que vir inteiro.

            Assustado com o tom de ultimato, atirou todas as fichas, abrindo um canal direto com o coração.

            _ Eu a amo. Não a quero por uma noite nem como aventura. Você é a mulher da minha vida. Juntos, podemos escrever uma história de amor.

            Podiam? Com lágrimas nos olhos e o rosto tomado de emoção, ela calculou as palavras; falou em voz metálica. Disse-lhe que aquilo era exatamente o que gostaria de ouvir desde o primeiro beijo e que precisava de um tempo para se decidir. Mas no segundo imediato estabeleceu o tamanho do fosso entre os dois. 

            _ Preciso te dizer: o que sinto por ti é menor do que o que você diz sentir por mim.

            Pela última vez beijou a lona.

            Como ato final, escreveu-lhe o mais belo poema. “Imperatriz, fonte, matriz/ tão longe, tão perto/ quase um triz”. A um passo do nada embrulhou sua alma naqueles versos. E seguiu viajante de luas e estrelas. 

 

   

           

             



Escrito por Nonato Reis às 10h43
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