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Canoeeeiro!

 

 

Era sacro. Todos os dias, ao romper d’aurora, lá estava ele à beira do rio - remo na mão ao lado da velha igara a ecoar o seu grito de guerra.

“Canoeeeiro!”

Tinha entre seis e sete anos. Pele morena, olhos de um verde profundo, expressão serena. Os cabelos castanhos, esfogueados, se estendiam em semicírculos até a linha da cintura.

Ficara órfão de pai e mãe cedo demais. Os dois partiram de mãos dadas deixando-o ainda de braço entre fraldas e mamadeiras. Quando aprendeu a andar e tomou consciência do mundo, foi a imagem da avó que lhe surgiu límpida, onipresente.

_ Meu filhinho, temos um ao outro. Eu serei o teu porto seguro, a cápsula que o protegerá dos riscos e das armadilhas da vida até te tornares homem.  E tu serás o meu horizonte, o suporte que me amparará até o final dos meus dias.

O tempo, porém, correu lépido. Aos cinco anos de idade, Geninho, como era carinhosamente chamado, foi surpreendido com o abatimento da avó. Do dia para a noite viu a figura de formas arredondadas e aparência firme definhar, cair de cama. O diagnóstico: tuberculose dupla.

Não fazia idéia do que era aquilo, mas sabia o que lhe aguardava. Abandonou a escola, meteu os livros numa gaveta qualquer; assumiu as tarefas da casa. Levantava às quatro da manhã, preparava o mingau de farinha d,água; tomava um copo pela metade; enchia  a caneca da avó, deixando-a na mesinha de cabeceira da cama de ripas; pegava remo e anzol e corria na direção do porto. Pescava até o amanhecer e em seguida, entregava-se a ganhar o pão de cada dia. 

O rio Maracu era passagem obrigatória para quem desejava sair ou entrar na cidade. Além de fonte de alimento tornara-se meio de renda para o povoado. Cruzava a estrada de asfalto como um extenso lençol líquido com suas águas claras e tranqüilas. Pela travessia os canoeiros recebiam moedas de 50 centavos. Em dia de sorte podiam ganhar até uma cédula de l cruzeiro por passagem.

“Canoeeeiro! Quem passa comigo vai pro paraíso; quem não passa morre afogado no rio”.

Escrito por Nonato Reis às 09h43
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A pregação engraçada e a força do seu carisma conquistaram rapidamente os passageiros.

_ Geninho, pega minhas malas!

_ Eu vou com aquele galeguinho de cabelos compridos.

_ Ô Geninho, me mostra o paraíso!

Não demorou muito e passou a despertar a inveja de um grupo de canoeiros, inconformados com a redução do faturamento.

_ Esse moleque ta acabando com nós.

_ Meu dinheiro já não dá nem pra comprar o rango.

_ Tamos liquidados!

_ Temos que agir rápido.

Na madrugada seguinte, ao chegar para a pescaria de anzol, Geninho encontrou o ancoradouro vazio. Um leve tremor percorreu-lhe a espinha. Num relance viu seu pequeno mundo estampado numa tela imaginária: a palhoça de pau a pique em que morava; o único calção de pano encardido, estendido no varal; o semblante desfigurado da avó enferma; e a sensação de miséria que dominava o ambiente. Precisava localizar a igara ou perderia a própria vida.

Numa atitude temerária, despiu-se. Colocou roupas e sandálias dentro da bolsa a tiracolo. Enfiou as alças no pescoço e se meteu no rio. Com o coração explodindo no peito, alcançou o leito e nadou sem rumo. Em pouco tempo a pressão da bolsa encharcada o arrastava para traz como uma enorme corrente. Tentou prosseguir, mas a cada braçada as forças lhe fugiam. O atrito desesperado contra a água formou uma onda que se espatifou no rosto e desceu goela e narinas abaixo. Procurou ar, sorveu água.  Quis gritar por socorro; tarde demais.

A notícia correu mundo; provocou choro e comoção.

_ Que coisa medonha!

_  Nunca mais este lugar será o mesmo.

Dali por diante a travessia do Maracu tornou-se um ritual depressivo. A cruz de pau d,arco espetada no porto parecia eternizar a dor e a agonia do garoto. Ao cruzarem o rio, de madrugada, pescadores afirmavam ouvir gemidos à beira do cais. Um vulto de menino, cabelos à cintura, surgia no ancoradouro e saia andando em plena lâmina d,água até se perder de vista. Em seguida o grito quebrava a placidez da noite num lamento angustiado.

“Canoeeeeeeeeeeeeiro!”     

 

 

 

 

 

  

 



Escrito por Nonato Reis às 09h43
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AMOR SOPRADO

 

Num segundo

Corro mundo

Crio atalhos

Invento fórmulas

E me embaralho

 

Porque é do ladinho

Ao pé do ouvido

Que eu me encaixo

Me refaço e me acho

Passarinho no ninho

Escrito por Nonato Reis às 17h36
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