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Três vidas e um destino
Porfírio Bucho de Bilha era desses sujeitos que chegam num lugar e se tornam o centro das atenções, tanto pela aparência como – e principalmente – pelo que sai da boca. Era grandalhão, quase 1,90m de altura; musculoso, barriga em formato de melancia, cara enfezada. A barba, sempre por fazer, cobria metade do rosto. O bigode, de tão comprido e espesso, caíra na graça dos amigos, que descobriram nele uma utilidade doméstica. “Porfírio, me empresta esse espanador. Preciso fazer uma faxina em casa”.
Primogênito de uma penca de 10 filhos, Porfírio encarnava o protótipo do macho nordestino. Mulher para casar tinha que ser prendada – saber cozinhar, lavar e engomar; cuidar da casa e ser dedicada ao marido. Estudar? Esse direito não fazia parte do seu código de leis. “Não dá certo; elas se formam e depois ficam cheias das idéias, querendo trabalhar fora, sair com amigos e coisa e tal”.
Traição era palavra amaldiçoada em seu vocabulário. “Mulher minha não me bota chifre. Ai dela se cair nessa besteira. Eu amarro a bandida com os braços para trás; dou uma surra de talo de tamarindo, corto a ponta das orelhas feito bezerro, e depois entrego a desavergonhada para os pais e nunca mais quero saber dela”. O primo Olívio ouvia aquela ladainha com uma ponta de bom-humor. “Porfírio, cuidado com essa língua, ela pode torrar em sua boca”.
Seis anos mais tarde o destino colocou Julinha no caminho de Bucho de Bilha. Foi amor à primeira vista. Mais seis meses de namoro e a relação desembocou no altar. Casados, formavam um par desconexo. Ele, rude, anti-social, bicho do mato; ela, educada, meiga, receptiva. “Não sei como a Júlia agüenta aquele casca-grossa”. “São coisas que só o sentimento, que se move por linhas tortas, explica (?)”, diziam as más-línguas.
Porfírio passava ao largo das maledicências. Ditava as regras da casa; segurava Julinha sob suas rédeas; mantinha-se vigilante sobre quaisquer sinais que pudessem colocar em risco a estabilidade do casal. A exceção era o próprio umbigo. Nunca fora de se preocupar com estética, nem de seguir princípios de higiene. “Esse negócio de sabonete, cremes e não sei mais o quê é coisa de fresco”, usava a frase como álibi para os que reclamavam dos odores repugnantes da sua presença.
O casamento só acentuou o lado negligente de Porfírio. Quase não tomava banho; abusava dos prazeres da mesa. Era capaz de passar uma semana com a mesma roupa. À noite, quando retornava da roça com o corpo melado e encardido; seu asseio resumia-se a uma toalha esfregada no rosto, ao fim do qual se apresentava para o jantar.
Na cama era uma máquina de fazer sexo. Vangloriava-se de passar duas horas ativo, sem intervalos ou preliminares. “Dizem que o sujeito, depois da primeira, precisa de um tempo pra descansar. Isso é coisa de gente que já está de unha encravada. Comigo não tem pé no freio”. Julinha agüentava o ritual noturno em silêncio: o peso do corpo dele subindo e descendo sobre o seu feito bate-estaca; o suor enlameado brotando em profusão; o cheiro acre que impregnava o espírito e embrulhava o estômago. “Ou essa mulher é uma santa ou deve estar sofrendo do juízo”.
Não demorou e o juízo da santa virou do avesso. Vadinho, um primo que estudava na capital e há anos não sentava os pés no povoado, apareceu de repente para uma temporada de férias. Como toda a família dele já morava em São Luís, a opção foi aboletar-se na casa da prima.
Escrito por Nonato Reis às 10h17
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Ao lado de Porfírio, era o sujeito mais-que-perfeito diante da santa. Magro, alto, branquinho, fala mansa. Metido a poeta, escrevia umas coisas que lhe tocavam o coração como descarga elétrica. E ainda havia aquele cheiro de seiva do campo a inebriar o espírito.
Em pouco tempo, a vida de Julinha encheu-se de luz. O primo grudara nela como sombra. Mesmo quando fora de casa a presença dele parecia estar em todos os lugares, especialmente naquele ponto mais sublime da alma. Como que entorpecida de um sonho azul, deixou-se guiar por aqueles fluidos magnéticos, sem se dar conta de que avançava um sinal proibido. E foi assim, pisando em nuvens de algodão, que a santa adentrou o jardim do Éden e plantou um par de adereços nos cornos de Porfírio, em plena cama conjugal.
A reação do marido foi imediata. Escaldado com o alerta dos “amigos” de que a relação dos primos podia explodir na sua testa, Porfírio largou seus afazeres na roça e fez o caminho de volta. Vendo a casa em silêncio e ouvindo gemidos abafados que provinham do quarto do casal, não teve dúvidas: meteu o pé na porta escancarando diante dos olhos a cena do crime.
_ Filho da puta, sua desavergonhada; eu mato vocês.
Espumando de ódio, lançou-se sobre a cama como um touro selvagem. Lépido feito puma, o primo deslizou entre as pernas de Porfírio, ganhou a porta da rua e fugiu em disparada, completamente despido, para espanto dos moradores que, ansiosos, acompanhavam o desenrolar daquele roteiro surreal.
As mãos de Porfírio caíram pesadas sobre o pescoço de Julinha. Sua vontade era espicaçar cada vértebra e acabar logo com aquilo. Mas, num relance, lembrou da promessa de juventude, tantas vezes repetida. Então, pegou a mulher pelos cabelos e com uma única mão a conduziu até o meio da rua. Diante do olhar estupefato da platéia, sacou da peixeira e cortou a ponta de cada uma das orelhas da mulher. Depois, puxou o cinto de couro de bezerro do cós da calça e açoitou a santa até o corpo dela desfalecer.
Em seguida, a arrastou pelos cabelos até a casa dos pais e a arremessou no meio da sala como quem joga um saco de lixo no caminhão da companhia de limpeza.
-Tomem a vagabunda de vocês. Ela fez um cabra macho de corno, mas teve a lição que merecia. Nunca mais vai se meter a besta cum outro. Palavra de Porfírio.
Na primeira noite sem a santa, Bucho de Bilha sentou-se numa mesa de bar e bebeu todas as suas dores. Na segunda, estatelou-se na cama e verteu um rio de lágrimas; na terceira acertou as contas com o seu destino. Logo ao amanhecer, fez a barba, tomou banho com sabonete Lux, penteou os cabelos, vestiu a melhor roupa e rumou para a casa dos sogros.
Ao pai de Júlia, que o recebeu entre zangado - por vê-lo ali - e surpreso com a nova aparência do genro, falou sem meias-palavras. “Vim buscar minha mulher. O lugar dela é lá em casa”. Foi informado de que a santa se havia mudado com o primo Vadinho para um casebre nos arredores da cidade. “Foi morar com o amante”, resumiu o velho batendo-lhe a porta na cara.
Bucho de Bilha absorveu cada palavra como gotas de fogo no coração. Como havia sido idiota! Fazer aquele escarcéu todo para, no final das contas, entregar sua mulher a um frangote emplumado! Tinha que haver uma saída redentora e o caminho era acertar as contas com a santa. Seguindo indicações de moradores, foi bater na casinhola de porta e janela às margens da estrada velha de tabatinga. Ao vê-la, jogou-se aos seus pés. Pediu clemência.
Escrito por Nonato Reis às 10h17
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_ Perdoa, benzinho! Fui um asno, agora eu sei. Volte pro nosso lar. O seu lugar é lá.
A santa deu um passo atrás, perplexa.
_ Porfírio! Você enlouqueceu? Depois de tudo o que aconteceu, como pode ainda me procurar?
_ O que aconteceu foi uma loucura. Me deixei levar pelo ódio. Mas aqui estou te pedindo perdão. Volta pra nossa casa, volta?
_ Porfírio, eu o traí, todos sabem, todos viram. Os sinais do meu erro estão aqui nas minhas orelhas, marcadas a ferro frio. Hei de carregar isso até o fim dos meus dias como uma letra escarlate. Já pensou na humilhação que passará ao lado de uma mulher em débito eterno com a sociedade?
_ Você deu o que é seu, não pediu emprestado nem roubou. Não deve nada a ninguém. Volte pra casa e salve a minha vida.
Por um instante perdeu a voz, engolfada com o choque das palavras de Porfírio. Sentiu-se como engolida por um túnel virtual que a conduzia de ponta-cabeça para os confins da sua existência. E viu-se menina, cabelos soltos ao vento, de mãos dadas com aquele garoto de olhos graúdos, forte como um touro, a lhe guiar os passos e o futuro. “Quando crescer, serei seu”. “E eu, sua mulher”.
_ Você salva a vida dele e acaba com a minha. Não é, Júlia?
_ Valdo!
A irrupção de Vadinho no alpendre da casa desarrumou o ambiente de reconciliação que se esboçava entre o casal.
_ Eu te mato, moleque!
Ato contínuo, Bucho de Bilha desembainhou o facão de lâmina dupla e correu na direção do rival.
_ Não, Porfírio! Se fizer isso, terá acabado com a minha vida também.
A reação de Julinha transformou Porfírio numa espécie de estátua de guerreiro medieval, braço direito ao alto, arma em punho, no exato momento em que preparava o golpe mortal.
A santa esclareceu então que não podia ficar com ninguém, já que seu coração se encontrava partido ao meio.
_ De um lado sinto-me presa a você, Porfírio, por laços invisíveis e inexplicáveis. Por outro, não saberia mais viver sem o primo. De modo que o meu destino é não ser de ninguém. Devo andar por aí, feito alma penada.
Foi então que Bucho de Bilha lançou a proposta mais cara da sua vida.
_ Minha santa, o seu destino é ficar cum eu e cum ele. Se nenhum pode viver sem o outro, vamos ficar os três. Nossa casa é grande, tem lugar pra mais um. E adispois, o Valdo já tava lá mesmo. Quê que custa ele ficar?
Um pesado silêncio caiu sobre os três. Entre cúmplices e assustados, apenas deixaram que seus olhos se cruzassem e se falassem. Ao longe, a voz de Reginaldo Rossi, reproduzida numa vitrola qualquer, inundou-lhes o espírito: “Eu devia te esquecer/e até outro amor procurar/ eu devia tanta coisa fazer/no entanto veja o que aconteceu/ é que o teu amor mais uma vez me venceu”.
Escrito por Nonato Reis às 10h04
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